
Porque a Política Econômica de Trump Não Vai Dar Certo
Não é necessário ser um economista para compreender alguns conceitos fundamentais. No primeiro semestre da faculdade, entretanto, aprende-se que a economia deve ser conduzida de tal forma que seja encontrado o equilíbrio entre a oferta e a demanda de bens e serviços. Quando esse equilíbrio não é alcançado, surgem efeitos previsíveis, como aumento ou diminuição de preços de produtos ou serviços e, se for em termos nacionais, a inflação de preços devido a excessos de demanda ou escassez de bens.
Com isso em mente, é possível analisar as propostas econômicas de Donald Trump, em especial sua política protecionista. Ao propor o aumento das tarifas de importação para incentivar a produção doméstica nos Estados Unidos, Trump desconsidera um fator essencial: o tempo necessário para que as indústrias americanas desenvolvam a capacidade produtiva para substituir os produtos importados. Além disso, muitas dessas indústrias dependem de tecnologias protegidas por patentes estrangeiras, o que pode dificultar ainda mais a transição para uma produção interna. Montar uma fábrica de automóveis, por exemplo, é um processo altamente complexo que pode levar anos, exigindo não apenas infraestrutura e mão de obra qualificada, mas também acesso a inovações tecnológicas muitas vezes registradas por empresas de outros países.
Assim, impor tarifas sobre importações de peças de automóveis do México, do Canadá ou de outros países não resultará, de imediato, na criação de fábricas e empregos nos Estados Unidos. Uma abordagem mais adequada seria a implementação de tarifas escalonadas ao longo de cinco ou dez anos, permitindo uma adaptação gradual da indústria americana, se isso fosse uma boa ideia.
Adam Smith, um dos fundadores da teoria econômica, já pregava ao final do século XVIII que os países têm vantagens que devem ser exploradas para a elevação do bem de todos; se o Brasil produz café com eficiência, assim como a Noruega produz bacalhau, a especialização e o comércio internacional promoverão uma economia global. Caso contrário, essas políticas apenas prejudicarão o comércio internacional, afetando os países exportadores para os EUA e gerando inflação para os consumidores americanos, que terão de arcar com os custos adicionais dos produtos importados.
Essa situação remete ao problema das cadeias de suprimentos durante a pandemia. Com a mudança nos hábitos de consumo, a demanda por serviços presenciais caiu, enquanto o consumo de bens adquiridos via e-commerce aumentou significativamente. Esse desequilíbrio sobrecarregou a indústria e os portos, resultando em longas filas de navios para descarregar mercadorias, como no porto de Los Angeles, um dos principais pontos de entrada de produtos chineses nos EUA. Em complemento a isso, ocorreram graves gargalos na logística global com a escassez de contêineres disponíveis devido a exportações unidirecionais – por exemplo, um conjunto de containers enviado da China para Angola permaneceu retido no país por falta de produtos para exportação de volta, reduzindo o fluxo global de transporte marítimo.
Se a proposta de Trump for levada a sério, suas consequências serão desastrosas. No entanto, há também a possibilidade de que esse discurso não passe de retórica populista, semelhante a outras declarações controversas, como a ideia de comprar a Groenlândia, invadir o canal do Panamá ou transformar a Faixa de Gaza em uma riviera italiana.
O Brasil, apesar de ter uma economia com um baixo percentual de comércio exterior em relação ao PIB, depende das exportações para gerar empregos e sustentar setores estratégicos, como mineração e agronegócio. Turbulências no comércio global podem afetar diretamente a economia brasileira.
Resta torcer para que o futuro traga notícias mais sensatas e que medidas extremas, como as propostas por Trump, não se concretizem. Afinal, alguém precisa conter o Mr. Donald Trump.