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João Doria em 2019?(dez/2017)

Paulo Gurgel Valente

Até as eleições vamos procurar neste espaço dar notícias dos candidatos à sucessão presidencial em 2018, especialmente através de depoimentos pessoais ao vivo, sem declarar nosso voto. Assim, na última semana, o prefeito de São Paulo, João Doria Junior, visitou o Rio de Janeiro para fazer uma palestra a empresários e comerciantes da cidade.

Não é segredo que a maior parte de suas múltiplas viagens prepara sua candidatura à Presidência da República, por mais que haja idas e vindas e inúmeros conflitos dentro de seu partido, até mesmo candidatos quase oficiais, como o governador Geraldo Alckmin.

Dentro da questão partidária, Doria afirma que se Alckmin estiver mais bem colocado nas pesquisas do que ele próprio, apoiará o atual governador e não descarta sua própria candidatura ao governo de São Paulo.

Por mais que diga que é novato na política, seu currículo registra passagens como Secretário de Turismo do prefeito Mario Covas e presidente da EMBRATUR no governo Sarney, além da carreira na publicidade e televisão.

Na eleição para a prefeitura de São Paulo, em 2016, Doria teve fortes concorrentes nas prévias de seu partido para a indicação a candidato e depois enfrentou vários caciques e ex-prefeitos nas urnas populares: 45 dias antes das eleições tinha alcançado somente 2% nas pesquisas sobre intenções de votos e chegou à vitória em primeiro turno com 53%. Ou foi produto de mágica publicitária ou veio atender um anseio novo dos eleitores, a conferir.

À primeira vista, transparece que seu grande programa de governo se baseia numa extensa privatização, que incluiria até a Petrobras e os Correios, empresas ícones da administração federal. Seu discurso não é, entretanto, novo, já que segue à risca uma posição caracterizada como liberal: além de vender estatais, Doria é a favor do equilíbrio fiscal, das concessões de serviços, de leilões de imóveis públicos que só geram despesas, do fim da burocracia que gera corrupção, das reformas na economia, regras claras e segurança jurídica para os negócios.

É abertamente a favor da reforma da previdência, indicando que a medida de estabelecer idade mínima de 62 anos para as mulheres e 65 anos para os homens economizará R$ 250 bilhões e seria um começo para o governo que assumir em 2019 possa completar (ele acha que a idade mínima deveria ser igual para os gêneros...), o que deve tirar muitos votos femininos que se sintam prejudicados.

É contra a lei de estabilidade dos funcionários públicos condenados pela corrupção e na área de comércio exterior prega uma grande abertura comercial, já que o Brasil é um país que faz poucas trocas internacionais.

Na capital paulista, Doria criticou a burocracia que leva um potencial empresário a consumir mais de 100 dias para abrir uma empresa, tendo estabelecido uma meta para reduzir para 1 dia; critica a morosidade e a dificuldade de fazer obras na cidade, pois se vê impedido pelo excesso de tombamentos, já que afirma que em São Paulo até trilhos de trens perdidos são tombados.

Tem como alvo predileto o ex-presidente Lula e sugere que quem goste de bandeira vermelha vá para Cuba, já que a sua bandeira será sempre verde e amarela. Para ele, não adianta fazer o discurso de choque do capitalismo, pois não é uma linguagem que o povo entenda.

No tempo limitado da palestra, não foram apresentadas propostas específicas sobre os assuntos que mais preocupam os eleitores como segurança, saúde, educação e habitação. Será, portanto, indispensável conhecer a fundo seu programa de governo e identificar o que pensa sobre os demais temas, para não ficarmos só nas medidas de maior impacto. Doria se apresenta com bom desembaraço, possivelmente é seu próprio marqueteiro, mas também terá de lidar com o desgaste que seu partido tem sofrido nos últimos tempos, ou, até mesmo, procurar outra legenda.

2018, ano de retomada e festa (nov/2017)

Paulo Gurgel Valente

Faltando poucas semanas para 2018, está na hora de ligar a bola de cristal na tomada para nos prepararmos no que for possível. Depois dos trágicos anos de 2015 e 2016, nos quais a queda da atividade medida pela variação do PIB resultou em menos 7,3%, o ano de 2017 deve fechar sem queda, com um crescimento mínimo, o que não deixa de ser um alívio e sinal de esperança no horizonte.

Os analistas do mercado estão prevendo retomada da atividade para 2018 a 2020 em cerca de 2,5% ao ano, aproximadamente a média da década passada – quando éramos felizes e não sabíamos.


De fato, observa-se que desde março de 2016 a evolução do nível de emprego (saldo acumulado) medido pelos dados do CAGED (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), indica que ainda há um longo caminho a ser percorrido para a retomada do emprego, mas vale ressaltar a evolução positiva que tem sido percebida mês a mês (há mais de seis meses), confirmando que esta recuperação tem fundamento.


Se olharmos um indicador mais amplo divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), englobando empregos formais e informais, notaremos que a taxa de desemprego já caiu de seu patamar máximo de 13,7% (14,2 milhões de desempregados) registrado em março de 2016, para 12,4% (13 milhões de desempregados) em setembro de 2017, uma queda de 8,5%, o que é bom neste curto prazo; ainda assim, representa um grande contingente de pessoas que precisam ser reincorporadas ao mercado de trabalho e consumo.

A flexibilização das leis trabalhistas agora em novembro, também é outro fator que deverá dinamizar a economia e contribuir para a aceleração da queda do desemprego em 2018.


Esta retomada se junta à melhora do poder aquisitivo real da população, já que a inflação tombou de 10,7% em janeiro de 2016 para cerca de 3% ao final de 2017, uma redução de sete pontos percentuais ao longo de dois anos.


A forte queda da inflação, cujas razões não estão somente na recessão econômica, mas também na queda do preço dos alimentos agrícolas por conta da grande safra, permite que a autoridade monetária (o Banco Central) possa reduzir ao mínimo histórico a taxa de juros praticada na economia, caminhando para menos de 7,0% em 2018.


No front externo há motivos para alegrias, já que tanto as exportações quanto as importações tem crescido substancialmente, sobretudo as exportações, o que é um indicador de que a economia brasileira como um todo tem reagido; é importante lembrar que as importações carregam muitos componentes de insumos industriais.


Olhando numa perspectiva mais longa desde janeiro de 2010, o saldo da balança comercial mais do que dobrou dos USD 30 bilhões para praticamente USD 70 bilhões ao final de 2017.


Como consequência, as reservas internacionais têm se mantido acima de USD 350 bilhões, tendo variado de USD 351 bilhões em dezembro de 2015 para USD 381 bilhões em outubro de 2017.


Mas nem tudo é céu azul, pois há a necessidade de afastar as nuvens negras do déficit público, que estacionaram nos R$ 160 bilhões em 2017 e 2018 (projetado), ainda que tenha sido adotado como instrumento de controle o teto dos gastos estabelecido ao final de 2016.

Esse controle não é suficiente, já que a falta de aprovação de novas medidas (a reforma desidratada da previdência), leva o mercado a projetar o crescimento da dívida pública, o que não é bom, mesmo com juros reduzidos. Parece que a bola de cristal está confirmando uma melhoria gradual.


Na esfera política, em outubro teremos uma festa democrática, pois serão realizadas as eleições para, enfim, renovar o executivo e parte do legislativo, agora sem financiamento empresarial e, sem reeleição do atual mandatário, o que ainda não vimos neste sofrido século.

Ter eleições livres e, esperamos, não contaminadas e financiadas pelo governo vigente, é para soltar fogos de artifício, fazer tocar a banda de música e rezar uma missa de ação de graças, ainda mais com possibilidade de deixar mensalões, petrolões e outras corrupções para a história. Enfim, fora todos!

As exigências para os candidatos são relativamente poucas: quem conhecer as quatro operações de soma, subtração, multiplicação e divisão poderá resolver 99% dos problemas nacionais, quase todos ligados a fazer as contas públicas se equilibrarem. E por favor, que não seja formado em Economia: a última economista no Poder virou o país ao avesso.

Também o requisito óbvio de ser honesto: fazer o que diz e dizer o que faz, transparência e sinceridade. Se as grandes reformas não saírem em 2018, que saiam em 2019, legitimadas pelo novo poder.

Esperamos que ao longo de 2018, voltemos à presença dos leitores com estas confirmações.

Sopa de letrinhas TJLP-TLP (set/2017)

Paulo Gurgel Valente

Faz poucos dias que, depois de discussão de quase seis meses, foi aprovada no Congresso a TLP –Taxa de Longo Prazo, em substituição à TJLP – Taxa de Juros de Longo Prazo. À primeira vista, parece uma falta de imaginação, mas é uma questão técnica bastante complexa, com efeitos importantes na economia. Para quem não gosta de complicação, é melhor parar por aqui.

Para começo de conversa, o leitor precisa voltar a 1994, quando foi criada a TJLP, uma “bruxaria” dos economistas. Refeita em 1999, a TJLP passou a ser calculada pela inflação projetada para os 12 meses seguintes, acrescida de um prêmio de risco, arbitrado pelo Conselho Monetário Nacional, sem grande balizamento metodológico, previsibilidade ou fundamento no custo de recursos públicos. Para quem não se recorda, o Plano Real foi criado para quebrar a inércia inflacionária, abolindo a correção monetária, isto é, a indexação da economia, acabando então com a correção de preços de contratos e juros através da ORTN – Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional, que reajustava praticamente tudo, da caderneta de poupança aos aluguéis, financiamentos, etc. É aborrecido, avisei no parágrafo anterior.

Ocorre que os financiamentos do BNDES – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, cujos desembolsos em 2016 foram de R$ 88 bilhões, passaram a ser cobrados das empresas que decidiam investir mediante esta TJLP. Mas, para encurtar a história, grande parte dos recursos vinham do Tesouro Nacional que, por sua vez pagava ao mercado os juros do momento, oscilando em patamares quase sempre superiores à TJLP, criando uma defasagem (ou rombo, em linguagem direta) que aumentava o déficit público, arcado por todos os brasileiros.

Como se sabe, a deterioração dos indicadores fiscais do Brasil de 2011 até 2016 (e para os próximos anos...) foi muito forte: o resultado primário – a diferença entre as receitas e despesas do governo – saiu de positivos 2,9% do PIB para um valor negativo de 2,5% do PIB, mais de 5 pontos percentuais, a tal crise da qual não queremos mais ouvir. Daí a proposta da TLP, para viabilizar novos recursos para cobrir o déficit a partir de 2018, que passará a ser cobrada nos novos financiamentos, à indústria, comércio e serviços, enfim, a quem se dispuser a investir.

É mais uma tentativa de reversão do desequilíbrio fiscal, necessária para que a dívida pública permaneça em patamares sustentáveis. A dívida cresceu, como percentual do PIB, de 2011 a 2016, de 53,7% a 69,5%, ainda com projeções elevadas para os demais anos; se nada for feito, não se sabe onde isto iria parar (ou se sabe, mas é impublicável).

Por que a TLP viria a ajudar no déficit público? A TLP é baseada na NTN-B, Nota do Tesouro Nacional, reajustada pelo IPCA do IBGE (Índice de Preços ao Consumidor Ampliado do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mais uma taxa de juros "do mercado", para títulos emitidos com prazo de 5 anos. Desta forma, o Tesouro Nacional empresta ao BNDES, que por sua vez empresta aos investidores, na mesma moeda. Pronto, acabou-se a defasagem, num passe de mágica...

Dizem os defensores da TLP, que sua criação terá mais um benefício: a política monetária, que ajusta a economia através do estabelecimento da taxa de juros, terá efeito mais amplo, já que influenciará também os tomadores de recursos de longo prazo. Como se observa no gráfico a seguir, o custo de mercado nos últimos 7 anos esteve sempre acima da TJLP.


Mas não é tão simples assim: quem investe, precisa de um incentivo para ajustar seu fluxo de caixa entre recebimentos e desembolsos e ainda pagar o financiamento, com uma "mão amiga". Caso contrário, pode não compensar, uma vez que o risco aumenta muito. Agora estamos entre duas forças: precisamos, ao mesmo tempo, reduzir a dívida e estimular a economia para gerar empregos e renda; infelizmente não dá para anular o ritmo do pêndulo da economia.

Perguntará o leitor que sobreviveu até aqui: no Plano Real não aprendemos que a indexação generalizada era ruinosa, perpetuava a inflação? Pois bem, como disse o presidente do BNDES, antes de aprovar as medidas, com a TLP a moeda nacional deixará de ser o Real para ser o IPCA, filme que já vimos e não gostamos do final. Já tínhamos aprovado a tal PEC do teto (Proposta de Emenda Constitucional), pela qual as despesas do governo não podem superar o valor do ano anterior, reajustada por sua vez pelo IPCA. Olha ele de novo nos dominando...

É possível, em razão do IPCA acumulado nos último doze meses estar em trajetória de ininterrupta queda há um ano, que a opinião pública não tenha se atentado para o risco da volta da indexação, que no último ano também foi utilizada para limitar o crescimento dos gastos públicos.

O suspense continua, vamos ver quando a TLP for definitivamente regulamentada, em breve, para termos mais esclarecimentos sobre os prós e contras desta novidade.

A ECONOMIA É UMA GUERRA: boas notícias do front externo (jul/2017)

Paulo Gurgel Valente

Não há quem discorde que a economia é uma guerra, composta de muitas batalhas articuladas entre si: contra o desemprego, a inflação, o desequilíbrio fiscal, a dívida pública crescente, as contas externas e, é claro, dentro do tema de que a economia se ocupa, a obrigação de atender minimamente à população em saúde, educação, segurança e justiça.

Também podemos discriminar esta guerra em dois fronts: o interno e o externo. No externo, hoje é dia de dar boas notícias, já que acabam de ser divulgados os dados das transações com o setor externo pelo Banco Central.

As exportações acumuladas nos doze meses encerrados em junho/2017 resultaram em US$ 202,7 bilhões e as importações em US$ 142,4 bilhões, o que gerou um saldo positivo de US$ 60,3 bilhões, montante notável para uma estatística anual, representando um aumento de quase 50% frente ao saldo dos últimos doze meses findos em junho/2016.

O mês de junho/2017 registrou um superávit de US$ 1,3 bilhões no saldo das transações correntes (saldo da balança comercial, serviços, juros e lucros). Ainda que nos doze meses encerrados em junho/2017 as transações correntes  tenham resultado em um déficit de US$ 14,3 bilhões (0,76% do PIB), este valor corresponde a uma redução de, aproximadamente, 50% em comparação ao período anterior (déficit de US$ 29,5 bilhões) e é o menor déficit registrado desde maio/2008 (US$ 16,4 bilhões), devendo ser visto, portanto, como um indicador favorável.

Por outro lado, de forma mais do que compensatória, os ingressos líquidos de investimentos diretos no país somaram US$ 80,6 bilhões nos últimos doze meses findos em junho/17, ou 4,25% do PIB.

A evolução das reservas internacionais é outro aspecto que merece atenção, conforme o gráfico a seguir:


O elevado nível de reservas (US$ 377 bilhões) tem se mantido neste patamar desde meados de 2011, o que confirma que o front externo da economia brasileira vai bem, não sendo diretamente um contribuinte para a crise fiscal e a recessão.

Como sabemos, nem sempre a perspectiva externa foi tão tranquila, especialmente quando o país dependia de divisas para as remessas de juros e compra de petróleo importado, o que afetava a credibilidade do sistema financeiro e o próprio abastecimento essencial de combustíveis. Como disse Mario Henrique Simonsen, a recessão esfola, a inflação aleija, mas a crise cambial mata. Em alguns anos antes da moratória brasileira do final de 1982,  o valor dos pagamentos de juros e petróleo chegaram a superar o valor das exportações.

As crises de balanço de pagamentos foram em parte contornadas no Brasil quando da adoção do sistema de câmbio flutuante, que fez com que as taxas de câmbio variassem de acordo com a oferta e demanda de divisas, procurando um equilíbrio: se, por exemplo, as exportações excedem em muito as importações, há grande entrada de recursos, que diminui o valor da taxa de câmbio, incentivando o aumento das importações.

Não obstante o ajuste natural do mercado, o Banco Central atua com intervenções pontuais, comprando e vendendo moedas externas com o objetivo de evitar oscilações bruscas da taxa de câmbio, sendo, pela dimensão das reservas, um parceiro imbatível.

É frequente a pergunta se o valor das reservas brasileiras não é exagerado. Para pensar numa resposta, apresentamos um quadro com os maiores valores das reservas internacionais por países em 2016 (fonte: Banco Mundial).


Considerando o aspecto absoluto, o nível de reservas no Brasil é elevado, já que figura entre os dez países com o maior volume de reservas. As agências de avaliação de risco e investidores estrangeiros, em geral, observam as reservas como um parâmetro para dimensionar a capacidade de cumprir pontualmente compromissos de importações, do principal e juros da dívida externa de um país, sendo portanto, um indicador de segurança.

Além das considerações sobre a disponibilidade de reservas, a contrapartida é observar que a dívida externa bruta é de US$ 307,3 bilhões, sendo a maior parte (US$ 259,6 bilhões ou 84,4%) de longo prazo; nesta ótica, as reservas líquidas brasileiras, computando esta dívida, são de US$ 69,7 bilhões.

Outro aspecto relevante, que pesa sobre as despesas do Tesouro brasileiro, é o fato de que o Brasil recebe por seus depósitos das reservas, em diversos bancos internacionais privados e não somente no Banco Internacional de Compensações – BIS/Suíça, juros muito inferiores ao custo da dívida interna brasileira, cujo elevado patamar (73% do PIB, segundo os dados mais recentes) é um dos principais responsáveis pela atual crise brasileira, já que foi expandida pelo descontrole dos gastos dos últimos governos, gerando receio de inadimplência.

Conforme depoimentos do presidente do Banco Central, Ilan Goldfajn, o excesso de reservas é uma garantia num momento de crise, e pode ser reduzido quando este movimento não estiver associado às demais tensões econômicas brasileiras, por enquanto pendentes das aprovações das reformas que controlam os gastos gerais e da previdência.

O fim da era dos dinossauros (jul/2017)

Paulo Gurgel Valente

Há aproximadamente 3,5 bilhões de anos, organismos unicelulares surgiram nas profundezas dos novos oceanos, no tempo em que a superfície terrestre ainda era um lugar hostil dominado por vulcões. Estes organismos se constituíram na forma mais avançada de vida no planeta, por mais de 3 bilhões de anos, até que as bactérias dos oceanos começaram a processar dióxido de carbono, água e a luz solar a fim de produzir oxigênio; isto permitiu que os micro-organismos do mar começassem a se juntar e formar organismos multicelulares, que evoluíram para dar origem aos animais.

Estes animais começaram a se reproduzir, evoluir e rastejar pela terra. Depois que a vida teve início, ela assumiu uma variedade de formas, a maioria das quais nunca vamos conhecer, pois os geólogos identificam pelo menos cinco episódios na história de nosso planeta durante os quais a vida foi destruída, súbita e extensivamente, com extinções em massa. Entre elas, a Extinção do Cretáceo-Paleógeno, ocorrida há 65 milhões de anos, que dizimou os dinossauros.

Isto nos faz encarar de outra maneira os 6 a 7 mil anos desde o surgimento das primeiras civilizações humanas propriamente ditas. Considerando o período que existimos em relação ao nosso planeta, não é difícil imaginar que a vida humana um dia também será extinta, por qualquer uma das razões expostas ou até mesmo por alguma outra razão.

Esta previsão é do historiador inglês Christopher Lascelles, na Breve História do Mundo (Edições de Janeiro, 2017) recém-publicada entre nós, o que nos leva a pensar numa possível extinção, pelo menos no Brasil, da vida humana associada aos indiciados na Operação Lava-Jato, os dinossauros de nossa época contemporânea. Obviamente, para os dinossauros propriamente ditos, não foi uma extinção benéfica, mas para o que se seguiu na evolução da vida animal foi bom, até chegarmos ao homo sapiens e tantos desenvolvimentos conhecidos. Quem sabe não chegou o tempo de um passo à frente da evolução humana, com a extinção de nossos dinossauros, concentrados no Planalto Central, mas com importantes ligações devastadoras, inclusive nas regiões banhadas pelas águas Baía da Guanabara.

Segundo a jornalista Miriam Leitão, em sua coluna desta semana, "esta é uma excelente oportunidade para a economia brasileira. Talvez a melhor. Em decorrência do combate à corrupção, o capitalismo brasileiro pode deixar de ser tutelado pelo Estado. As empresas têm a possibilidade de encontrar, na eficiência e na competição, quem são os reais vencedores. Velhos vícios públicos e privados poderão ser eliminados. A avenida que se abre para a economia é promissora".

Ainda segundo Miriam, "a mais óbvia vantagem é a de não ter que entrar na corrida sobre quem paga mais propina pelo contrato, ou quem faz mais contribuição pelo caixa 2 com o objetivo de conseguir no futuro algum benefício dos cofres públicos. É redução do custo Brasil. Pensem só no volume espantoso de dinheiro que saiu do caixa da Odebrecht e da JBS para o pagamento sistemático de propina nos últimos anos. Esses valores que espantam o Brasil distorceram a economia. Os cartéis impediram a competição, as vantagens prejudicaram concorrentes e a corrupção criou também barreira à entrada de novas empresas."

Em se confirmando a extinção dos dinossauros brasileiros, alguns sinais se apresentam na forma de expectativas de mercado e das mudanças já em curso, indicando um possível cenário para uma retomada:

    •     Inflação projetada pelo último relatório Focus – com as estimativas do mercado - para 2017 e 2018 em baixa inédita (3,1% e 4,0%, respectivamente) e consequente queda dos juros (meta da taxa SELIC em 8,0% para 2017 e 2018), o que além de incentivar a atividade econômica, reduz sensivelmente a carga da dívida pública;

    •     Reservas internacionais sólidas de US$ 376 bilhões;

    •     Aprovação do limite de gastos pela emenda da constituição (“PEC do Teto dos Gastos”);

    •     Tendência de que a reforma trabalhista seja aprovada, o que deverá reduzir o contingente de desempregados a médio prazo e que teremos alguma reforma da previdência aprovada, longe da necessária, mas constituindo-se em avanço parcial;

    •     Saldo positivo do comércio exterior, com um superávit de US$ 34 bilhões no acumulado do ano da balança comercial; e

    •     Entrada de investimento direto de US$ 53 bilhões no período de janeiro a maio de 2017.

É curioso verificar que a população percebe o momento da revelação da corrupção como ruim, e não de júbilo pela realização de uma grande faxina, já que os grandes delitos do mensalão, do petrolão com as empreiteiras e agora do churrascão dos açougueiros vem ocorrendo na obscuridade na última década e meia. Com este foco de luz, há a chance de evolução da espécie humana que chamamos de brasileiros e brasileiras, se pudermos ter em 2018 uma eleição de candidatos ficha limpa em qualquer instância, e sem financiamento eleitoral por empresas.

Contagem regressiva (mar/2017)

Paulo Gurgel Valente

Em breves 15 meses à frente, já estaremos engajados nas eleições presidenciais de 2018. Embora o pleito em primeiro turno esteja marcado para o dia 2 de outubro, já em maio teremos os registros das candidaturas, caso a lei da “ficha limpa” esteja em vigor e haja brasileiros elegíveis, além da lista Janot.

As decisões de médio prazo estão, assim, já nesta expectativa, considerando que as orientações de política econômica podem ser completamente diversas, dependendo de quem tomar posse. No recém-publicado livro Anatomia de um Desastre, da PORTFOLIO-PENGUIN e escrito pelos jornalistas Claudio Safatle, João Borges e Ribamar Oliveira, traça-se um retrato interessante, destacando-se os erros de política econômica:

    •     Excesso de gastos públicos para melhorar os cenários antes das eleições de 2010 e de 2014, disfarçados como medidas anticíclicas;

    •     Queda excessiva da taxa de juros SELIC, de forma desordenada;

    •     Desalinhamento de preços administrados (combustíveis e energia elétrica) para conter a inflação e “câmbio competitivo”;

    •     Conjunto de normas da “nova matriz econômica”, com reversão do tripé de sustentação do equilíbrio: superávit primário, taxa de juros flutuante e metas de inflação;

    •     Fortes desonerações tributárias nas folhas de pagamento empresariais, com redução da arrecadação do governo e sem repercussão na atividade e emprego;

    •     Aumentos de capital e repasses aos bancos públicos BNDES, Banco do Brasil e Caixa Econômica (10% do PIB), com repasses do Tesouro Nacional, maquiando as contas públicas, com retorno via dividendos extraordinários antecipados, criando grande expansão do crédito, de 24% do PIB em 2004 para 53% do PIB em 2014;

    •     Manobras (pedaladas) para esconder a realidade do déficit público, através de contabilização fora do regime de competência (despesas do mês ou ano de referência contabilizadas no mês ou ano posterior), criação do “mês 13”.

Já o New York Times publicou um artigo nesta semana falando do “otimismo cauteloso”, mais ligado às novas emissões de ações esperadas para 2017, um recorde que deve movimentar ofertas de R$ 25 bilhões na Bovespa, com 17 companhias captadoras. Há outros fatores que podem justificar esperanças realistas:

    •     A forte redução da inflação com taxa convergindo para o centro da meta definida pelo do Banco Central, com a correspondente queda da taxa de juros básica (SELIC), o que deverá fomentar o crescimento;

    •     A queda na taxa de câmbio de 4,05 R$/US$ (jan/16) para 3,10 R$/US$ (fev/17), caindo 23% em 13 meses;

    •     A primeira estatística do CAGED – Cadastro Geral de Empregados e Desempregados voltando a apresentar um saldo positivo entre contratações e demissões, após 22 meses negativos;

    •     A própria subida do índice Bovespa de 38 mil pontos (jan/16) para o patamar acima de 60 mil pontos em 2017;

    •     A manutenção da nota da agência de rating Moody’s, se não favorável, pelo menos não é ruim;

    •     A Petrobras registrou no quarto trimestre de 2016 um lucro de R$ 2,5 bilhões, crescimento de 31% da margem Ebitda em relação ao ano anterior, com recordes de produção;

    •     O volume de reservas internacionais permanece acima de R$ 360 bilhões, confirmando que a questão externa não é um problema, em oposição a outras crises;

    •     O leilão dos aeroportos de Fortaleza (CE), Salvador (BA), Florianópolis (SC) e Porto Alegre (RS) garantindo aos cofres públicos uma receita de R$ 3,72 bilhões durante todo o período da concessão, sendo R$ 1,46 bilhão arrecadado na assinatura dos contratos;

    •     A aprovação do estabelecimento de teto de gastos e o encaminhamento das demais reformas, da previdência, flexibilização do regime CLT e terceirização;

    •     O alinhamento dos preços administrados, sem reflexo comprometedor da inflação;

    •     E por último, a permanência de equipes profissionais nas estatais e empresas de economia mista, dando nova direção aos problemas que colocaram o país na situação atual.

Vamos esperar que os eleitores façam um reflexão segura para 2018, a partir de agora, com base em fundamentos reais e menos paixões ideológicas: se ainda não temos muitos resultados, forma-se pelo menos uma expectativa mais promissora.

G.R.E.S. Banco Central: O Carnaval dos juros (fev/2017)

Paulo Gurgel Valente

Às vésperas do Carnaval, o Comitê de Política Monetária do Banco Central – COPOM – fez a quarta redução seguida na taxa básica de juros, para 12,25% ao ano, o que representa uma queda de dois pontos percentuais em relação ao patamar de outubro passado (em quatro meses), quando começou o movimento de baixa com o novo governo.

Nas últimas semanas tem ocorrido novamente um acirrado debate entre economistas em torno da questão dos altos juros praticados no Brasil, que teve como ponto de partida o trabalho do professor John H. Cochrane, da Universidade de Stanford. Cochrane examinou a condução da política monetária das economias de países desenvolvidos a partir da crise financeira de 2008, quando os juros estiveram perto de zero e os bancos centrais injetaram dinheiro em suas economias, tendo constatado que nem por isso houve grande crescimento econômico e inflação. O autor questiona a eficácia das teorias tradicionais que sustentam a elevação da taxa de juros para combater a inflação, pois no longo prazo haveria uma inevitável relação entre juros altos e inflação alta.

Dentre os vários economistas que comentaram sobre esta nova hipótese, Armínio Fraga considera a polêmica interessante, porém inoportuna, já que a predominância fiscal – com o desastre colossal das finanças públicas, deveria ter absoluta prioridade na agenda brasileira. Segundo Fraga, o levantamento de uma hipótese de “um caminho novo e fácil” distrai a necessidade imperiosa de caminharmos com rapidez para as reformas tão adiadas para a redução do crescimento da dívida pública.

A teoria econômica tradicional considera a intervenção governamental na determinação da taxa de juros como uma forma de política econômica (“a política monetária”) para controlar a demanda por bens e serviços e – indiretamente – o nível de preços; é intuitivo perceber que se as taxas de juros estão elevadas, os investidores são atraídos a alocar seus recursos no mercado financeiro, em vez de optarem pelo mercado real (de bens e serviços), uma vez que o alto nível da taxa de juros aumenta a rentabilidade dos papéis financeiros e encarece o crédito para investimentos e consumo.

De forma complementar, o consumidor vê sua propensão a consumir cair com a subida da taxa de juros, em razão da elevação do custo do crédito, com os juros embutidos nas compras a prazo e suas implicações diretas no orçamento familiar mensal e seu poder aquisitivo.

Em favor da nova teoria, observa-se que juros muito altos obrigam os empresários a repassar o custo dos juros tomados na produção ou na venda de seus produtos, o que alimenta o processo inflacionário, além de que os juros constantemente altos mantém a expectativa de mais inflação, haja vista que a confusão entre juros nominais e juros reais não é tão fácil de esclarecer para o público geral.

No Brasil, lamentavelmente, a taxa Selic, controlada pelo Banco Central, quando reduzida, não afeta proporcionalmente os juros para o consumidor, seja no cheque especial ou cartão de crédito, onde a política monetária via juros não mostra sua força. Felizmente estão atentos o Ministro da Fazenda e o Presidente do Banco Central em tomar medidas para colocar em patamares mais razoáveis os juros para os consumidores, haja vista o enorme spread entre estes juros e a remuneração popular de outros instrumentos mais singelos à disposição da massa assalariada, como a caderneta de poupança.

Em recente entrevista ao jornal Valor Econômico, John Cochrane afirmou que o crescimento econômico resultará das reformas estruturais, sendo que estas precisam também considerar o papel chave da política fiscal (o recolhimento de impostos vis-à-vis as despesas governamentais) para que se alcance uma inflação baixa e estável. Consultado sobre o caso brasileiro, Cochrane apresentou seu desconhecimento sobre nossa situação, não recomendando qualquer aventura para o COPOM.

Por outro lado, sabemos que as duas experiências de rápidas quedas na taxa de juros, de 13,75% em janeiro de 2009 a 8,75% em julho de 2009, e depois de 12,50% de agosto de 2011 até 7,25% em outubro de 2012, mexeram com a cabeça dos pequenos investidores, sejam os habituados à caderneta de poupança ou mesmo imóveis. O pequeno investidor no Brasil ainda está mais ligado à taxa nominal do que à taxa real – que desconta a inflação - de modo que juros nominais abaixo de 1% ao mês, nível psicológico, podem ter desestimulado esta modalidade de poupança.

Na época restou uma das mais tradicionais opções de investimento, os imóveis para investimento na valorização ou aluguel, que tiveram ajuda do abundante e acessível crédito imobiliário, fazendo com que a subida dos preços dos imóveis animasse quem quisesse entrar nesta roda-viva, ao ver a curva de preços em ascensão.

Do grego se originou a palavra panaceia, ou “um remédio para todos os males”, que sabemos que não existe. Não há somente um único samba-enredo neste Carnaval (ou uma só corrente de pensamento na economia): os juros têm de achar um ponto de equilíbrio, em que não sejam demasiado altos para desestimular os investimentos e o consumo razoável nem exageradamente baixos que façam as economias procurarem outros ativos em correria. E estas medidas precisam de complementos: a saúde financeira do Tesouro Nacional, o controle da dívida pública e a repressão aos juros extorsivos no cheque especial e cartão de crédito.

Trumponomics (jan/2017)

Paulo Gurgel Valente

Nesta sexta-feira, 20 de janeiro, o mundo irá acompanhar a posse do novo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, com a perspectiva de que tudo pode mudar na área econômica. Ou não.

É verdade que muitas vezes o novo presidente não diz coisa com coisa, mudando de ideias frequentemente; apesar disso, o portal americano INVESTOPEDIA fez nesta semana uma análise das principais políticas defendidas pelo novo governo, que aqui resumimos, sobretudo a partir da expectativa de sua política econômica de corte de impostos (para empresas e indivíduos), reestruturação dos acordos comerciais e introdução de benefícios fiscais para estimular obras de infraestrutura e defesa.

Comércio exterior: Trump quer retomar para os Estados Unidos “os empregos que foram gerados no exterior em decorrência da globalização”, implicando na revisão ou cancelamento, por exemplo, dos acordos do NAFTA, que reduziram as barreiras comerciais entre Canadá, Estados Unidos e México, tendo anunciado, por exemplo, a criação de um imposto de importação de 35% sobre os produtos da Ford fabricados no México.

No foco do presidente eleito está a China, que ele acusa de reduzir o valor de sua moeda – desvalorização cambial – para obtenção de vantagens nas exportações de produtos chineses. Vale lembrar que as reservas em divisas da China estão em mais de US$ 3 trilhões; Trump prometeu ainda declarar a China como especuladora de moeda e atribuir impostos de importação de 45% sobre os produtos de origem chinesa.

Impostos: A redução das faixas de incidência do imposto de renda das atuais sete para três, inclusive sobre ganhos de capital, também está entre as iniciativas esperadas no governo Trump, com o consequente aumento da dedução básica anual de US$12,6 mil para US$30 mil. A taxa mais alta de imposto de renda para empresas cairá de 35% para 15%, além de propor uma taxa especial de 10% para o retorno dos lucros mantidos no exterior, reduzindo a proporção de lucros no mercado global, frente ao mercado americano.

Política Monetária: Acredita-se que Trump deva estimular a política de elevação da taxa de juros, uma vez que ele entende que o Federal Reserve estaria criando uma bolha a partir da manutenção da taxa de juros em um patamar baixo; a elevação dos juros ainda ajudaria a valorizar o dólar frente às demais divisas.

Dívida Pública: Eliminação da dívida pública americana em até oito anos, cujo montante atual é de cerca de US$ 20 trilhões, não descartando uma eventual renegociação a partir da recompra de títulos com descontos.

Regulação econômica: Trump quer afrouxar os mecanismos de regulação econômica, com o objetivo de estimular o crescimento, inclusive reduzindo ou ignorando as restrições decorrentes da consciência sobre as mudanças climáticas e poluição.

Infraestrutura: O investimento em infraestrutura nos Estados Unidos deve ser altamente incentivado, tendo como ponto de partida a construção do polêmico muro na fronteira com o México, cujo custo estimado é de US$ 25 bilhões. Uma parte dos recursos necessários para este projeto seria obtida com a interrupção das remessas ou transferências financeiras para o México, estimadas em US$ 24 bilhões por ano. Por mais esdrúxula que seja a ideia do ponto de vista político e humano, sua concepção econômico-financeira deixa muitas dúvidas, haja vista não haver receitas próprias que a sustente. As demais propostas de Trump são de investir em ferrovias, estradas, aeroportos, pontes, redes de energia elétrica e telecomunicações, sistema de água e segurança, o que resulta no montante de US$ 1 trilhão a ser investido em 10 anos, em parte financiado com títulos públicos ligados à infraestrutura.

Energia: Repetidamente o novo presidente tem afirmado que a questão climática é “uma falácia criada pelos chineses para tornar a indústria americana não competitiva”; o novo governo pretende remover as restrições ao crescimento via atividades ligadas aos combustíveis fósseis, o que levaria a um aumento do nível de empregos, além da renegociação do Acordo de Paris sobre o clima.

Saúde: Trump quer substituir o Obamacare, sistema de saúde implantado pelo último presidente, pelo Health Savings Account, não obstante a manutenção das partes mais populares do programa, dentre as quais, a proibição dos grupos de saúde de negar atendimento sobre condições pré-existentes e a permissão de que os jovens sejam mantidos nos programas, de forma vinculada aos seus pais, até a idade de 26 anos.

Imigração: A imigração foi um dos pontos centrais de sua campanha, quando identificou os imigrantes mexicanos como traficantes, estupradores – criminosos em geral – mas aceita que “algumas pessoas sejam honestas”. Além do muro já citado, promete deportar cerca de 11 milhões de pessoas sem documento, e também proibir que os filhos de imigrantes ilegais tenham direito à cidadania americana. Ressalte-se a proposta de punição a quem tentar voltar aos Estados Unidos ilegalmente, sendo condenado à prisão federal pelo período de dois a cinco anos. As oportunidades de emprego, na visão de Trump, devem ser oferecidas inicialmente aos americanos, e não havendo interessados, para os imigrantes. Quanto aos muçulmanos, Trump propôs uma restrição total em sua campanha, que foi depois abrandada.

Considerações finais: Como tudo isso afetará o Brasil, se efetivamente for implementado, é algo que teremos de acompanhar, pois a situação é tão grave que pode acontecer tudo, inclusive nada.

2017: hora de investir no Brasil? (dez/2016)

Paulo Gurgel Valente

Por mais que todos saibam que a hora recomendável de investir é quando estamos na época de valores depreciados dos ativos (ações em bolsa, empresas fechadas, imóveis, etc.) ou seja, em plena recessão, é sempre difícil definir ex-ante o momento mais agudo da baixa do ciclo econômico; também é comum imaginar que a crise nunca passa – não custa lembrar que até hoje nunca houve recessão sem recuperação, embora os timings da retomadas sejam diversos.


Antes de avaliar se o momento de recuperação será 2017, vale a pena com o auxílio de gráficos da conjuntura recente, pensarmos sobre a política econômica que resultou neste desastre – sim, o desastre foi planejado, não é um fenômeno da natureza como um furacão ou tsunami. Houve uma intenção de fazer a atividade rodar no ritmo mais alto possível a partir da metade do segundo governo Lula e depois aguentar as consequências; mirava-se numa bolha que deixaria os eleitores com a ilusão de que a bonança seria permanente, daí valeria a pena insistir no mesmo partido da situação, agora com uma “grande gerente” e “mãe do PAC – Programa de Aceleração do Crescimento”.

Do ponto de vista do cenário mundial, para uma visão abrangente, o Banco Mundial colocou o Brasil em 2015 com o nono PIB, praticamente igual ao da Itália, maior do que o Canadá, Coréia do Sul, Austrália, Rússia e Espanha; já na renda per capita, caímos para a vergonhosa 66ª posição. Se, em termos absolutos, somos um player mundial, em termos relativos somos emergentes e, em princípio, com maiores oportunidades de crescimento do que os mercados maduros do primeiro mundo.

A evolução do nosso PIB, como exibida a seguir, mostra que desde 2010, a atividade vem caindo, tendo registrado crescimento de 0% em 2014, negativos 3,8% em 2015, novamente negativos em 2016 em 3,5% e uma previsão pífia de uma retomada de 0,7% para 2017: parece o início de uma tênue retomada.


Em termos da inflação oficial, em dezembro de 2014, saímos do teto máximo da banda de variação do COPOM de 6,5%, para os preocupantes 10,7% em janeiro de 2016, e 7,0% agora em nov/16 e, salve!, uma projeção para dez/17 de 4,9%, um pouco acima do ponto central da meta, que é de 4,5%: não é nada mal se isso for o caminho para reduções mais fortes.


A taxa de juros do Banco Central, forçada para baixo a partir do segundo semestre de 2012, praticamente levou, no primeiro semestre de 2013, a uma taxa real de juros de 0,5 % ao ano, de incentivo à grande expansão, até mesmo em termos de primeiro mundo, o que dirá na nossa cultura subequatorial de juros altos.


Em consequência, em dez/13 atingimos o patamar mínimo em muitos anos de desemprego, com 6 milhões de pessoas (PNAD contínua IBGE), valor que se manteve por um ano – eleitoral, como planejado – e que começa vigorosamente a crescer até 9,2 milhões em dez/15, primeiro ano do segundo governo Dilma, até chegar nos alarmantes 12 milhões, como uma poderosa explosão da bolha de crescimento 2 anos após o início da inevitável aterrissagem.


O uso das empresas de economia mista, negociadas em bolsa de valores, como Petrobras e Eletrobras, para conter a inflação via contenção dos preços administrados, levou a Petrobrás por seis anos a manter praticamente constante o valor da gasolina ao consumidor, enquanto que a OPEP saía de US$ 40 o barril para o triplo, US$ 120, causando na empresa um estrago muitas vezes maior do que o desvio das propinas auditadas, que foram de R$ 6 bilhões somente no Balanço de dez/14. A demagogia continuou no valor da energia elétrica e tudo o mais que estava sob o comando do governo; não podia dar certo por muito tempo.


Também o Banco do Brasil, instituição com ações transacionadas na bolsa, foi usado na política econômica, fora de seus propósitos empresariais. O BNDES e a CEF foram igualmente usados ao máximo para o interesse da política econômica; o primeiro com repasses de grandezas estratosféricas do Tesouro Nacional, inclusive concentrando 70% dos financiamentos externos em uma só empreiteira, enquanto o segundo igualmente atuou com grande expansão do crédito.

Também a política cambial, de segurar a taxa de câmbio para controle da inflação, não se sustentou, e com o agravamento da crise política tivemos uma desvalorização do real de jan/13 para jan /16, com um acréscimo de 100% na taxa de câmbio, de R$ 2,00 para R$ 4,05.


O caminho da dívida pública, de quase 50% do PIB em 2010/2011, estava perdido, observando-se crescimentos estimados em 2016 e 2017 para 73% e 76%, o que levou à queda do grau de investimento pelas agências de rating: advertência mais clara, impossível.


Não foi para menos: desde 2014 passamos a registrar déficit público, depois de uma década de superávit primário, chegando ao máximo – esperamos – em 2016 de R$ 171 bilhões ou 4% do PIB, e aparentemente caminhando para um pouco menos de R$ 140 bilhões em 2017 (cerca de 3% do PIB).


Correndo na mesma raia, a partir da segunda metade do segundo governo Lula, já na expectativa eleitoral, aceleraram-se os empréstimos ilícitos (as “pedaladas”) dos bancos oficiais para as despesas do governo – Programa de Sustentação do Crescimento, Minha Casa Minha Vida, Bolsa Família, Previdência, seguro-desemprego – na clássica acepção de que os fins justificam os meios: os fins, claramente, de manter a ilusão do crescimento, com maquiagem das contas públicas.


Desde 2014 a Operação Lava-Jato vem tentando corrigir o conluio do cartel de empreiteiras de grande porte com os financiamentos de partidos políticos; com a proibição das doações empresariais às campanhas eleitorais e o fim da impunidade para crimes de corrupção, espera-se que estejam sendo criadas novas bases para investimentos em infraestrutura, por si só multiplicadores do crescimento. Não obstante, a falta de recursos dos governos, alternativas via concessões, privatizações e PPP’s surgem como possibilidades.

Com a troca definitiva do governo em outubro de 2016, inicia-se a tentativa da adoção de uma série de ajustes. As grandes linhas de atuação passam por uma nova equipe econômica, afinada com o equilíbrio das contas públicas, a partir de um conjunto de condições que começam a ser colocadas em prática, como a política de preços dos combustíveis e da energia elétrica, os estímulos às privatizações, concessões e PPP’s e a taxa de câmbio ajustada, que já permite um equilíbrio nas exportações e importações.

O primeiro êxito marcante, que envolveu a reforma da Constituição foi a aprovação da emenda sobre as despesas governamentais, com o objetivo de limitar a dívida pública em valores reais por um período de 20 anos. Outra medida estrutural será a reforma da previdência, de tramitação congressual mais lenta.

Os caminhos para saída da crise econômica estão traçados, sua indispensável execução depende ainda do cenário político institucional e do desenvolvimento da correção da Lava-Jato.

O Papel da Governança na Empresa Familiar (coluna empresa familiar) (nov/2016)

Ronaldo Fiani

Doutor em economia pela UFRJ e sócio da ProFit

Vimos no artigo anterior que a questão fundamental para a empresa familiar é conseguir combinar capital humano e social para produzir vantagens competitivas, que vão distingui-la dos seus competidores e garantir sua sobrevivência no longo prazo. Comentamos que a empresa familiar, pelos conhecimentos tácitos que os membros da família dispõem sobre o seu negócio, pode reunir capital humano superior do que sua concorrência.

Da mesma forma, os vínculos sociais da própria família podem estabelecer relações duradouras baseadas em confiança mútua e valores comuns entre a empresa e várias partes interessadas (stakeholders), tais como clientes, funcionários, credores, acionistas minoritários etc.

Enfatizamos, porém, que a acumulação e combinação de capital humano e capital social como forma de garantir vantagens competitivas para a empresa familiar é apenas uma possibilidade: nada garante que a empresa familiar vai conseguir realizar esta tarefa. Em primeiro lugar pelo fato de que nem todas as famílias possuem capital humano e social para gerir com sucesso um ramo de atividade. Mas há uma segunda questão, bem menos óbvia: mesmo dispondo de capitais humanos e sociais superiores a outras empresas, estes recursos podem estar comprometidos em razão de conflitos internos e externos com as demais partes interessadas não pertencentes à família, ou ainda por decisões estratégicas, percepções equivocadas da realidade, preconceitos etc. É justamente nesta etapa crítica que entra em questão a governança da empresa familiar.

Vejamos inicialmente a questão da redução dos conflitos. Como exemplos internos à empresa, temos embates com funcionários, executivos e acionistas minoritários que não fazem parte da família. Por outro lado, como exemplos externos, registram-se divergências com credores, fornecedores, clientes, agências reguladoras, danos ambientais, relações problemáticas com sindicatos e entidades da sociedade civil, etc.

Os conflitos, sejam internos ou externos, consomem recursos da empresa, reduzem sua rentabilidade e, em alguns casos, o mercado de atuação, ao afetar sua reputação e a percepção do público sobre o valor de seu produto. A transição de uma pequena ou média empresa para uma grande empresa familiar tende a provocar novas desavenças, que não existiam quando a empresa era ainda de tamanho reduzido, pois à medida que o crescimento ocorre, é necessária a criação de estruturas cujo objetivo seja a redução e superação dos antagonismos que decorrem do processo de expansão da empresa familiar, inclusive o escopo de sua atuação. Estes desentendimentos, portanto, podem ser uma barreira importante para a combinação bem-sucedida de capital humano e social pela empresa familiar, limitando gravemente o seu crescimento e sua sustentabilidade no longo prazo.

Mas o risco de atrito não é o único desafio do crescimento da empresa familiar. Além disso, a expansão da empresa familiar aumenta seu portfólio de produtos e amplia os mercados em que atua. Isto demanda uma maior capacidade de formulação e implementação de estratégias. Um dos grandes problemas a serem minimizados com uma governança adequada é a necessidade de gestão profissional, que frequentemente não se encontra no meio familiar, à medida que a empresa cresce. Esta necessidade envolve a sucessão da empresa, tanto do ponto de vista patrimonial como administrativo – que já seria objeto de um artigo específico por sua complexidade.

Em linhas gerais, o crescimento bem-sucedido da empresa familiar é a condição sine qua non para sua sobrevivência.

Capital humano e capital social (coluna empresa familiar) (nov/2016)

Ronaldo Fiani

Doutor em economia pela UFRJ e sócio da ProFit

Vimos no artigo anterior que as pequenas e médias empresas familiares enfrentam o desafio de crescer essencialmente a partir da acumulação interna de lucros, dadas as dificuldades que sofrem para ter acesso a capital de terceiros. Mas como é possível para a empresa familiar crescer, estando restrita à acumulação interna de lucros?

Em primeiro lugar, crescer a partir da acumulação interna de lucros não exige apenas que a empresa familiar reinvista seus lucros no seu negócio. Mesmo reinvestindo os lucros, se a empresa não apresenta um desempenho melhor do que os seus competidores, tanto ela como os seus concorrentes estarão crescendo à mesma taxa: a taxa de crescimento do mercado em que atuam. Se isto acontecer, a empresa estará na mesma situação de seus rivais e, portanto, não conseguirá se distinguir deles na busca pelos recursos financeiros de que necessita para crescer e garantir sua sustentabilidade no longo prazo. A analogia aqui é a de um grupo de maratonistas que correm todos juntos: fica difícil distinguir um corredor em particular no meio dos demais, e se interessar por ele.

Crescer acima da taxa de crescimento dos seus competidores significa absorver parcelas de mercado de seus concorrentes, o que somente é possível se a empresa possui vantagens competitivas. Diz-se que uma empresa apresenta vantagens competitivas em relação aos seus rivais se ela consegue oferecer produtos que são mais desejados pelos compradores do que os produtos de seus competidores; ou se ela consegue produzir com custos menores do que os seus competidores; ou ainda as duas coisas ao mesmo tempo. Quando a empresa apresenta vantagens competitivas em relação aos seus rivais, sua lucratividade é, portanto, maior que a deles (ainda que vendendo a um preço um pouco inferior).

Ocorre que a empresa familiar possui outras características que lhe conferem, em potencial, a capacidade de desenvolver vantagens competitivas em relação aos seus concorrentes: a possibilidade de empregar capital humano e capital social. Capital humano é a soma dos conhecimentos, habilidades e capacidades adquiridos por uma pessoa, que elevam sua produtividade e/ou sua capacidade de tomar decisões na empresa. O capital humano é, portanto, constituído pela soma da educação formal e conhecimento tácito adquiridos pelo indivíduo, sendo o conhecimento tácito aquele obtido pela prática (“aprender fazendo”, do inglês learning by doing). O capital humano total de uma empresa seria, assim, constituído pela soma dos capitais humanos de seus funcionários e de seus administradores.

Frequentemente, os próprios familiares são uma fonte importante de conhecimento tácito, derivado de sua prática em um ramo de atividade. Dito de outra forma, os membros da família que atuam na empresa muitas vezes dispõem de conhecimento prático valioso sobre o seu ramo de atividade. Uma vez que o conhecimento tácito é difícil de imitar, pois deriva da prática e, assim, não se encontra acessível em livros ou manuais, ele pode ser uma fonte importante de vantagem competitiva para a empresa.

Já o capital social é constituído por redes de relacionamentos e vínculos pessoais que servem para sustentar relações de confiança. Um elevado nível de capital social por parte da família que administra a empresa resulta em relações estáveis e duradouras, o que incentiva a cooperação e, assim, reduz os custos derivados de disputas e controvérsias, aumentando a lucratividade. Uma vez que a própria família é constituída por redes de relacionamentos, na medida em que ela consiga estabelecer relações estáveis e duradouras com os funcionários e gerentes da empresa que não pertencem à família, fornecedores, bancos, clientes etc., a família estará acumulando capital social que poderá ser fonte de vantagens competitivas, ao reduzir os custos produzidos por conflitos, revisões de contratos, substituição de fornecedores, gerentes e funcionários, perda de clientes, redução das fontes de acesso a crédito etc.

A questão se torna, então, saber se a empresa familiar vai conseguir acumular e combinar capital humano e social, para produzir as vantagens competitivas que vão distingui-la dos seus rivais e garantir sua sobrevivência no longo prazo. A resposta a esta pergunta exige considerar a governança da empresa familiar, tema do próximo e último artigo desta série.

Trópicos utópicos (nov/2016)

Paulo Gurgel Valente

Na semana passada, o economista – mais até, filósofo – Eduardo Gianetti, apresentou uma palestra sobre seu mais recente livro, “Trópicos Utópicos: uma perspectiva brasileira da crise civilizatória”, no qual discute quais as possibilidades de melhoria em nossa economia e sociedade em geral.

Recém saídos de uma importante eleição, verifica-se que todos os candidatos, em princípio, prometem grandes avanços, divergindo nos caminhos para seu alcance: ninguém se apresenta contra a saúde, a educação, a segurança e a casa própria. Segundo Gianetti, nestes casos caímos na percepção humana sobre a utopia, isto é, para onde podemos nos direcionar idealmente; olhamos para trás e percebemos que não se pode alterar o passado, mas o que virá não é necessariamente imutável, já que o futuro pode ser redirecionado relativamente à história.

Prever o futuro somente com base em fatos passados é, como a história da galinha, que diariamente era alimentada pelo dono da granja até que, certo dia, ao perceber a aproximação do granjeiro, deduziu que a rotina se repetiria; no entanto, o que ela não sabia era que aquele seria o dia que seu pescoço seria torcido.

A identidade nacional é o tema central do livro que reflete também sobre a ciência, a tecnologia e o crescimento econômico. Gianetti prossegue sugerindo dois campos definidos no pensamento desenvolvimentista brasileiro. Um deles seria o mimético, em que o Brasil seria um país em desenvolvimento, almejando um dia ter uma economia como um estado típico do sul dos Estados Unidos, ou ainda de algum país mediterrâneo da Europa. O outro campo de pensamento seria o profético, daqueles que não quer nos resignar ao passado ou ao exemplo dos países desenvolvidos; teríamos de criar um país com uma nova realidade própria, mestiça, fora dos modelos anglo-americanos.

O autor afirma que, no padrão americano, um indivíduo que tenha uma renda anual média per capita de US$ 28 mil é considerado uma pessoa mal sucedida, enquanto que na estatística mundial, este americano estaria no topo da pirâmide, entre os 5% mais ricos. Só em refrigeração, os EUA consomem um volume de energia elétrica equivalente ao consumo total do continente africano; a natureza física e biológica do mundo não suportaria se todos evoluíssem para esse padrão, ao menos não mantendo a composição da matriz energética atual, ainda dependente de fontes não renováveis.

Na análise de satisfação pessoal, é frequente que se faça o comentário a respeito de uma premiação nas olimpíadas: o medalhista de prata, apesar de bem colocado, acaba infeliz porque não alcançou a medalha de ouro, enquanto que o premiado com o bronze fica satisfeito em pelo menos estar no pódio. Nas palavras de Gianetti:

"A corrida armamentista do consumo tem uma lógica semelhante. Nenhum consumidor é uma ilha: existe uma forte e intricada interdependência entre os anseios de consumo das pessoas. Aquilo que cada uma delas sente que “precisa” ou “não pode viver sem” depende não só dos seus “reais desejos e necessidades” (como se quiser defini-los), mas também – e, talvez, sobretudo, ao menos nas sociedades mais afluentes – daquilo que os outros ao seu redor possuem. Ocorre, contudo, que a cada vez que um novo artigo de consumo é introduzido no mercado e passa a ser usado, desfrutado ou ostentado por aqueles que pertencem ao nosso grupo de referência – restrito a amigos, parentes e vizinhança no passado, hoje expandido pelo big bang das mídias, blogs e redes digitais – o equilíbrio se rompe e o desconforto causado pela percepção da falta atiça e impele, como ardência de queimadura, à ação reativa da compra do bem. Porém, quando todos se empenham em alcançar os que estão em cima – ou ao menos não ficar demasiado atrás deles –, eles passam a trabalhar mais (e/ou se endividar) a fim de poder gastar mais, ao passo que o maior nível de gasto e consumo se torna, por sua vez, “o novo normal”. A lógica da situação obriga-os a correr cada vez mais depressa, como hamsters confinados a esferas rotatórias, para não sair do lugar (2016, p. 96)."

Apesar do brilhantismo do autor em sua proposta, somente parte da população brasileira anseia de forma mais direta por padrões mais elevados de consumo, tal como nos Estados Unidos (ter a medalha de prata enquanto sonha com a de ouro), por estar sempre mirando cenários como aqueles descritos nas novelas da dramaturgia da televisão: trata-se justamente de uma classe média em minoria, já que grande parte ainda resvala na falta de saneamento básico, níveis aceitáveis de saúde e educação, quando os desejos não são comparativos, mas absolutos.

A vez da empresa familiar (out/2016)

Paulo Gurgel Valente

Conselheiro de Administração Certificado pelo IBGC

Na última semana foi realizado o 17º Congresso do Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC, com uma importante tendência de, finalmente, direcionar os esforços de análise e desenvolvimento das empresas brasileiras de natureza familiar, com o oportuno lançamento do Caderno de Governança da Família Empresária.

O Caderno tem diversas abordagens como a diferenciação do conceito da governança corporativa e da governança familiar, que devem ser adotados de forma complementar. A governança corporativa atua no ambiente de negócios, visando a garantia da sustentabilidade e a proteção dos ativos, além da relação com as partes interessadas (stakeholders), como colaboradores, clientes, fornecedores, entre outros. Já a governança familiar é o sistema pelo qual a família desenvolve suas relações familiares e atividades empresariais, com base em sua identidade e em regras estabelecidas, auxiliando na minimização dos conflitos de interesse e na sustentação do núcleo familiar e do negócio ligado.

A revista The Economist desta semana informa que, nos EUA o número de companhias abertas caiu de 7 mil para 4 mil na última década. Algumas start-ups de enorme sucesso, como Uber e Airbnb, preferiram não abrir o capital, evitando a emissão de ações ao público e angariando recursos através de fundos de investimentos privados; as captações iniciais (IPO) nos EUA reduziram-se em, aproximadamente, 70% em 10 anos.

Lamentavelmente, os lançamentos de novas empresas de capital aberto, que têm muitas propriedades louváveis, estão em declínio por diversas razões: as mudanças tecnológicas fizeram com que as novas empresas sejam menos intensivas em capital, de modo que a necessidade de captação é menor, além do fato de que estar listado em bolsa envolve cada vez mais burocracia, e manter o público de Wall Street feliz em cada trimestre é desafiador. Uma característica das empresas fechadas é a de que as suas ações têm menor liquidez e, portanto, em geral as transferências de propriedade são mais difíceis.

Entre as várias classificações possíveis, podemos identificar as empresas pela natureza de seu controle: estatais ou de capital privado, além de um subgrupo composto por empresas estrangeiras ou nacionais, e nestas, as de capital aberto, com negociações de suas ações em bolsa de valores ou de capital fechado, sem transações em bolsa. Nestas últimas, há o predomínio do capital de controle familiar.

A empresa familiar é aquela na qual uma família concentra a propriedade da empresa e/ou o controle da administração. Vale ressaltar que em torno de um terço das 500 empresas que compõem o índice Standard & Poor’s da bolsa de Nova York são grandes e duradouras empresas familiares, como os proprietários das marcas BMW, Carrefour, Fiat, Ford, Hyundai, LG, L'Oréal, Michelin, The Wall Street Journal e Wal-Mart. Já no Brasil destacam-se: Cosan, Globo Comunicação, Gol Linhas Aéreas, Grupo Silvio Santos, Ipiranga, Itaú-Unibanco, Magazine Luiza, Votorantin, entre outras, uma parte com negociação em bolsa, mas a maior parte do capital permanece fechado. Note-se que no último levantamento das 1.000 maiores empresas do país, somente 200 são negociadas em bolsa.

O direito à propriedade é uma garantia jurídico-política, como assegura o artigo 5º da Constituição Federal (poderia ser diferente, basta conferir a constituição russa de 1918, que aboliu o domínio privado). Não obstante, embora a expectativa de vida do brasileiro esteja crescendo segundo os últimos levantamentos, ela continua abaixo dos 80 anos, o que configura um inevitável problema: a empresa bem sucedida que, portanto, dura muitos anos, precisa se ocupar de sua sucessão patrimonial e de gestão.

Transmitir bens de uma geração para a outra pode ser relativamente trivial, caso estejamos falando de bens imóveis e ativos financeiros, os mais comuns, mas quando se trata de uma participação societária, com direito ao controle, a propriedade implica necessariamente em continuação da gestão: trata-se de bônus trabalhoso, que precisa ser enfrentado, muito antes de ocorrer a transferência pela inevitabilidade da finitude humana.

A sucessão é, assim, um dos aspectos mais complexos a ser tratado em uma empresa familiar, quando se refere à transferência de poder e de gestão entre as gerações da empresa. O planejamento sucessório também deve ser estruturado a partir das chamadas melhores práticas de governança corporativa, que consistem em um conjunto de normas que regulam o relacionamento de poder entre os proprietários da empresa e seus administradores, com a criação de fóruns específicos para a prevenção e resolução de diversos tipos de conflitos, sejam estratégicos, societários ou administrativos.

A governança corporativa tem sido adotada cada vez mais também por empresas de capital fechado, familiares ou não, na medida em que estabelece uma estrutura institucional pela qual as partes envolvidas no destino da empresa podem discutir esse destino, os meios de realizá-lo e os instrumentos de controle de desvios do orçamento empresarial. Dentre os principais benefícios da governança corporativa incluem-se a redução de conflitos entre as partes envolvidas na empresa (acionistas e executivos), o aumento de lucratividade e do crescimento. Como falamos, a sucessão é um dos principais assuntos da governança de empresas familiares, mas há outros problemas que são próprios destas características, e que felizmente contam com a experiência de como agir advinda de outras companhias, que devem ser aproveitadas e adaptadas para cada empresa específica.

Grande parte da dinâmica moderna nas empresas familiares advém da formação de Conselhos, com a atuação de conselheiros independentes, isto é, de fora da empresa, que se contrapõem ao ambiente estritamente familiar onde frequentemente ocorrem decisões envolvendo os afetos e anseios dos integrantes da família, estejam ou não na gestão dos negócios.

Se é o caso de nossos leitores, que não se deixe de aproveitar a experiência acumulada, agora mais do que nunca abordada de forma didática através do IBGC e seus conselheiros certificados.

Vambora, Meirelles! (set/2016)

Paulo Gurgel Valente

Um jornalista profissional sabe que para dar notícias com segurança é recomendável ter mais de uma fonte. Se compararmos, por exemplo, os dados do PIB medido pelo IBGE, com o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), temos respectivamente, quedas de 4,9% e 4,0%, nos últimos 12 meses findos em julho/2016.

Outros dados navegam na mesma direção, ou seja, são correlatos como o índice de desemprego do IBGE, que alcançou 11,3% em junho/2016, mais 3 pontos percentuais em relação a junho/2015 (8,3%) e 4,5 pontos percentuais em relação a junho/2014 (6,8%).

Na última semana, o jornal Valor Econômico divulgou um comparativo das mil maiores empresas do país em 2015, que juntas apresentaram uma redução de faturamento real de 2,8%, excluindo Petrobras e Vale, com o endividamento total crescente em R$ 411 bilhões (+ 28%) e uma relação de geração de resultados operacionais menor que os juros pagos. Das 1.000 maiores empresas, apenas 20% têm suas ações negociadas em bolsa de valores, as demais são empresas de capital fechado, familiares ou não.

Não é, portanto, por falta de fontes ou dados que temos de agir rapidamente com as medidas anunciadas pelo governo, saindo do discurso para a ação rápida. Como exemplificou Maquiavel em seu clássico “O Príncipe”, publicado em 1532, em algumas doenças, no princípio, é fácil a cura e difícil o diagnóstico, mas com o decorrer do tempo, se a enfermidade não for conhecida nem tratada, torna-se fácil o diagnóstico e difícil a cura.  “Assim também ocorre nos assuntos do Estado, porque conhecendo com antecedência os males que o atingem (o que não é dado senão a um homem prudente), a cura é rápida; mas quando, por não se os tiver conhecido logo, vêm eles a crescer de modo a se tornarem do conhecimento de todos, não mais existe remédio”.

Algumas linhas de pensamento heterodoxas têm tentado aliviar a culpa do governo, sugerindo que o grande problema fiscal foi originado pela queda da arrecadação, em função da recessão. É preciso organizar causas e consequências no tempo, para não cair nesta reversão da espiral filosófica. As despesas do governo cresceram absurdamente nos últimos anos, tendo 2014 – por interesse eleitoral – sido seu clímax, e somente após o início do desmonte do modelo da nova matriz econômica, que havia tentado revogar a aritmética, é que a arrecadação passou a cair de modo abrupto. Num país em que, por mais de uma década, os Ministros da Fazenda acumularam a função com a de tesoureiro do partido, não se esperavam bons resultados, pelo menos para as finanças públicas. Já para o partido...

No caso brasileiro, já temos o conhecimento de todos sobre a extensão dos problemas e suas causas, mas está faltando uma ação mais acelerada, já que outro preceito maquiavélico é de que “é preciso fazer todo o mal de uma só vez a fim de que, provado em menos tempo, pareça menos amargo, e o bem pouco a pouco, a fim de que seja mais bem saboreado”.

Dessa forma, vale ressaltar que além do período de interinidade na presidência, já estamos caminhando para um mês desde o início oficial do atual governo, sem que surjam notícias de medidas mais urgentes e necessárias, apenas previsões de queda na taxa de juros ou de inflação abaixo do centro da meta, deixando-se de lado a ideia de que cautela e agilidade deveriam andar unidas.

Assim, convém recordar algumas atitudes que o governo já deveria ter implementado de forma mais clara e objetiva, como o limite para os gastos públicos, um encaminhamento para o futuro da previdência, uma reforma trabalhista que ofereça maior flexibilidade aos acordos entre empregadores e empregados e a indispensável segurança jurídica para estimular os investimentos privados e as privatizações.

Vambora, Meirelles, quem sabe faz a hora, não espera acontecer.

Recursos para o Crescimento da Empresa Familiar(ago/2016)

Ronaldo Fiani

Doutor em economia pela UFRJ e sócio da ProFit

Vimos no artigo anterior que o principal desafio da pequena empresa familiar para assegurar seu sucesso e sobrevivência é crescer. A empresa familiar, enquanto não atingir um tamanho parecido com os líderes de seu mercado, precisa crescer para poder enfrentar seus competidores e obter lucros cada vez mais elevados, pois é preciso realizar ganhos de escala, ou seja, aproveitar as reduções de custos que resultam da operação em grande escala. Sem realizar ganhos de escala, o custo da empresa será maior do que os de seus competidores que tiverem sucesso em crescer.

Vimos também que o crescimento é uma necessidade, mesmo que a estratégia da empresa familiar seja a de fornecer um bem ou serviço diferenciado para o que se convencionou chamar “nicho” de mercado. Ocorre que alcançar os consumidores em nichos de mercado vantajosos exige gastos em publicidade e comercialização, que também apresentam economias de escala! Sem se aproveitar dessas economias, a empresa terá muita dificuldade em alcançar consumidores nos “nichos” mais lucrativos.

Vamos supor, então, que a direção da empresa familiar compreendeu o seu desafio, ou seja, que os membros da família que comandam a empresa não veem a empresa apenas como fonte de renda (isto é, algo não muito diferente de uma aplicação no mercado financeiro ou de um imóvel alugado), e que eles entendem que a sobrevivência da empresa depende do seu crescimento. Em outras palavras, vamos considerar que a família entendeu que seu objetivo tem de ser o sucesso da empresa, antes de qualquer outra coisa.

Mas onde uma pequena ou média empresa familiar pode obter os recursos de que precisa para crescer?

Esta pergunta não é simples, como poderia parecer a princípio. Isto porque as pequenas e médias empresas familiares enfrentam uma barreira importante ao seu crescimento: a dificuldade em obter crédito em condições adequadas para as suas necessidades de crescimento. Em primeiro lugar, bancos e outros agentes financeiros tendem a favorecer grandes empresas estabelecidas, que possuem elevada reputação, prestígio no mercado e garantias, em detrimento de pequenas e médias empresas, especialmente empresas novas. Trata-se de uma atitude racional, quando você é um gestor de banco com vários projetos para avaliar, a maioria sobre negócios diferentes, e pouco tempo para levantar todas as informações necessárias, ainda que com isto possa premiar uma grande empresa pouco dinâmica e penalizar uma pequena ou média empresa em ascensão.

Em segundo lugar, as garantias de uma pequena e média empresa familiar são mais incertas do que as de uma grande empresa. Isto porque as garantias de uma pequena e média empresa muitas vezes são compostas, por exemplo, dos recebíveis de que ela dispõe, enquanto que as garantias de uma grande empresa são, em sua maior parte, constituídas, por exemplo, por itens de seus ativos imobilizados. Se você é um gerente de banco e tem de justificar um empréstimo, o que você aceitaria como garantia: títulos a receber de uma empresa familiar pequena ou média, ou um amplo galpão de uma grande empresa, com seu terreno e suas instalações?

Esta realidade impõe sobre as pequenas e médias empresas familiares uma necessidade inescapável: a necessidade de crescer a partir da acumulação interna de lucros. Com efeito, estudo de 2001 de Robert E. Carpenter e Bruce C. Petersen com 1.600 empresas pequenas norte-americanas (onde o mercado financeiro é o mais desenvolvido do mundo) mostra que efetivamente elas dependem da acumulação interna de lucros para crescer, podendo contar apenas marginalmente com recursos do sistema financeiro.

A necessidade de crescer essencialmente a partir da acumulação interna de lucros estabelece novos desafios para a pequena e média empresa familiar. Por exemplo: os lucros serão reinvestidos para a empresa crescer e aumentar sua competitividade, ou servirão para tentar sustentar as relações da família, especialmente aquelas que apresentam dificuldades (o famoso problema do altruísmo da empresa familiar)? Esta pergunta está relacionada à questão da governança da empresa familiar, e será abordada mais adiante.

Antes disso, porém, é importante perguntar: como é possível crescer, restrito à acumulação interna de lucros? Este será o tema de nosso próximo artigo.

Novo Regime Fiscal sanciona a inflação(jul/2016)

Paulo Gurgel Valente

Está em tramitação no Congresso a primeira medida de impacto do governo interino, visando reduzir o inédito descontrole do déficit primário, os tais R$ 170 bilhões, em 2016, e os R$ 139 bilhões em 2017. Como se sabe, as causas e consequências se confundem, com o desemprego (11 milhões de pessoas, mais de 3 milhões de 2015 para cá), inflação elevada a 9% (dobro da meta de 4,5% !)  e falta de investimentos, capitaneados pela aceleração desenfreada da dívida pública (R$ 4,1 tri, mais R$ 1,2 tri em dois anos, quase 20% ao ano de crescimento).

A proposta de emenda constitucional cria o Novo Regime Fiscal, que vigorará por vinte exercícios financeiros, fixando um limite individualizado para a despesa primária total do Poder Executivo, do Poder Judiciário, do Poder Legislativo. O que chama a atenção é que o exercício de 2017 incorporará a despesa primária realizada no exercício de 2016, corrigida pela variação do IPCA.

O Plano Real, que este mês completa 22 anos, praticamente destruído com a quebra da Lei de Responsabilidade Fiscal nos anos recentes, tinha como princípio estabilizar a moeda, quebrando a inércia inflacionária, que recriava a inflação sempre num nível mais alto no ano posterior pelos reajustes automáticos.

Corrigir as despesas do governo pela inflação, como propõe o Ministro da Fazenda, resulta na perpetuação da inércia inflacionária em níveis elevados, levando a uma expansão contínua de sua espiral. Em sentido contrário e bem positivo, o novo presidente do Banco Central propõe manter a meta inflacionária de 4,5% para 2017, contrariando o que muitos economistas desejavam, que era ampliar a meta para um nível mais alto;​​outros economistas defend​em até uma meta mais baixa, justamente para reverter as expectativas. Por sua vez, a inflação nos EUA está em cerca de 1% ano, na Europa em zero, no Japão há deflação e por aí vai, passando inclusive pela América Latina: não há como não levar isso em conta no Brasil, ao sermos tão​condescendentes em nossas políticas.

Com a gravidade de corrigir as despesas pela inflação, já fica sancionado e autorizado este aumento nominal. É claro que só para considerar as necessidades básicas de saúde, educação e segurança, teríamos de manter o patamar real, mas para controlar a inflação é indispensável anular a aprovação do ritmo nominal, sob o risco de perpetuar o problema. Defender o social é buscar a eficiência máxima da aplicação de cada real arrecadado do contribuinte nas despesas sociais, sem desperdício e sem corrupção, já que um dos melhores remédios para a pobreza e miséria é justamente garantir o poder aquisitivo de quem não tem instrumentos para isso e com três doses diárias da mesma vitamina: emprego.

De outra forma, a lista de despesas pela ineficiência é muito grande, e não caberia nos limites deste comentário. As fraudes vão do seguro-desemprego ao bolsa família, sem deixar de passar pelo crédito consignado, e atingem diretamente os menos favorecidos. Para exemplificar, nos últimos anos caímos no paradoxal aumento dos gastos com o seguro-desemprego, quando o nível de desemprego só caía, demonstrando uma fraude pesada e descontrole. Agora, no entanto, o seguro-desemprego, mais do que nunca um instrumento social indispensável, está ainda invadido por oportunistas.

Ainda estamos em tempo de o Congresso cancelar a autorização da correção automática de despesas pela inflação, e concentrarmos nosso foco na contenção de despesas perdulárias, pela ineficiência e fraudes. A inflação não pode ser tolerada pelo Diário Oficial, pois já vimos que não é possível aceitar um pouquinho de inflação, distorcendo os ensinamentos de John M. Keynes sobre gastos anticíclicos. É inevitável constatar que os aproveitamentos eleitorais ao se criar uma situação falsa de bem-aventurança resultaram na pior crise brasileira de todos os tempos.

Perfil da Governança Corporativa em Empresas Familiares(jun/2016)

Paulo Gurgel Valente

Conselheiro de Administração Certificado pelo IBGC e sócio da ProFit

A sucessão é um dos aspectos mais importantes e complexos a ser tratado em uma empresa familiar, quando se trata da transferência de poder e de gestão da primeira para a segunda geração. A Governança Corporativa surge como solução também para as empresas não negociadas em bolsa – chamadas empresas fechadas - pertencentes ao middle market brasileiro.

Na última semana, o Instituto Brasileiro de Governança Corporativa – IBGC, promoveu no Rio de Janeiro um seminário coordenado por Richard Doern, na qual foi debatida a importância da Governança Corporativa e o papel do conselheiro em empresas familiares.

Como sabemos, os conselheiros de administração podem ser internos (diretores, funcionários ou ainda acionistas), externos (não tem vínculo atual com a sociedade, mas em algum momento já possuíram, como ex-diretores e advogados) ou independentes (não tem qualquer vínculo com a sociedade, exceto eventual participação de capital não controlador). Em particular, o conselheiro independente agrega experiência, conhecimento técnico e visão de fora da empresa (estranhamento).

Em estudo realizado em 2015 pela KPMG com 227 empresas listadas na bolsa, verificou-se que apenas 25% das empresas possuem conselheiros independentes, indicando que haveria aproximadamente 300 vagas ocupadas por conselheiros independentes. Em outra análise constatou-se que 90% das 15 mil empresas brasileiras com faturamento anual acima de R$ 100 milhões são familiares e, portanto, por sua natureza e porte, já teriam a necessidade de contar com conselheiros independentes em sua administração, o que significa um mercado 50 vezes maior se considerarmos apenas as potenciais vagas para conselheiros independentes.

Vale ressaltar a estatística do The Family Business Advisor de que a sobrevivência das empresas familiares que passam para a terceira geração é de somente 30% e daí em diante cai para menos de 15%, o que denota que a eficiência da gestão é indispensável para garantir sua continuidade. Se considerarmos que hoje só permanecem na lista de Maiores e Melhores da revista Exame 18 empresas daquelas que constavam na lista de 25 anos atrás (menos de 4%), temos um reforço para esta necessidade.

Desta descontinuidade, confirma-se que um dos assuntos prioritários na agenda dos conselhos seja o direcionamento estratégico da empresa, ou seja, para onde vai o negócio, sendo esta a principal função do Conselho, sobretudo quando se leva em conta a existência de uma relação diretamente proporcional entre a necessidade de melhoria da gestão em relação à competitividade do setor no qual a empresa está situada: se uma determinada empresa tem atuação em um mercado no qual existam muitos concorrentes, esta empresa pode perceber uma pressão por aprimorar sua administração, como uma tentativa para aumentar a lucratividade, gerenciar os custos e conquistar market share, pois erros de administração consomem as margens mais altas e o grande diferencial entre empresas familiares é a chamada maturidade do modelo de gestão, e não o faturamento.

A evolução, no sentido de crescimento, de um Conselho começaria com um Conselho de Sócios que se reuniriam informalmente para discutir assuntos da empresa e na fase seguinte se criaria um Conselho Consultivo, até que a maturação estivesse completa, sobretudo na cultura organizacional e societária da empresa, até a fase da instalação do Conselho de Administração.

É curioso constatar que, em geral, o primeiro conselheiro independente tem um viés financeiro, basicamente porque a empresa em fase de crescimento tem necessidade de se financiar para expansão. Nas fases mais avançadas de formação do Conselho se discute mais o futuro que o presente, ocorrendo a inclusão do Secretário Executivo e o pensamento quanto à admissão de um sócio estratégico ou private equity. Este processo de maturação do Conselho costuma levar até 5 anos, em média, e por isso é bom começar logo: a caminhada de mil quilômetros começa com o primeiro passo.

O Desafio da Empresa Familiar(jun/2016 - Coluna Empresa Familiar)

Ronaldo Fiani

Doutor em economia pela UFRJ e sócio da ProFit

Vimos no artigo anterior que há grandes empresas familiares que, longe de possuírem vida curta, podem sem empresas tradicionais em seus ramos de atuação, com idade superior a um século. Com efeito, citamos os casos de algumas das maiores empresas do mundo que são comandadas por famílias que controlam o seu capital: Mars Chocolate North America (proprietária das marcas M&M’s, Pedigree, Whiskas, Royal Canin, Uncle Ben’s); News Corporation (The Wall Street Journal, The Sunday Times); Cargill; Ford Motor Co.; Wal-Mart; Fiat; L'Oréal; Carrefour; Michelin; Samsung; Hyundai Motor; LG Group, BMW e Siemens.

O mesmo acontece no Brasil: Ipiranga, TAM, Globo Comunicação e Participações, Itaú-Unibanco, JBS, Cosan, Magazine Luiza, Sadia, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Grupo Votorantin, Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras, são exemplos de grandes e duradouras empresas familiares.

Isso demonstra que a natureza da empresa familiar não é em si mesma um obstáculo ao sucesso, como muitos economistas ainda acreditam. Contudo, ainda que algumas empresas familiares tenham um desempenho brilhante, muitas outras (sem dúvida, a grande maioria) fracassam. Por quê? Vamos começar a responder a esta pergunta neste e nos próximos artigos.

Primeiramente, precisamos reconhecer o grande desafio da empresa familiar para assegurar seu sucesso e sobrevivência. O grande desafio da empresa familiar é crescer. Ela precisa crescer porque o crescimento é a condição necessária para que a empresa familiar possa enfrentar os seus competidores, consolidar sua liderança e obter lucros cada vez mais elevados. E há uma razão econômica para isto: o crescimento é essencial à toda empresa familiar porque é preciso realizar ganhos de escala, ou seja, obter reduções de custos que resultam da operação em grande escala. Sem realizar ganhos de escala, o custo da empresa será maior do que o de um competidor que opte pelo caminho do crescimento, e a empresa que não cresceu terá dificuldades para competir.

O leitor deve notar a importância dos ganhos de escala mesmo que a empresa opte por fornecer um bem ou serviço diferenciado, voltado para o que se convencionou chamar “nicho” de mercado, pois alcançar o nicho mais atraente exige gastos em publicidade e comercialização, que também apresentam economias de escala!

Eis, pois, o grande desafio da empresa familiar: crescer, e aqui temos o primeiro grande obstáculo à sobrevivência da empresa familiar: a incompreensão do desafio essencial do crescimento por parte de muitas famílias que controlam empresas. De fato, esta incompreensão resulta de uma mentalidade muito comum, que poderíamos chamar de mentalidade “rentista”. Essa mentalidade rentista vê a empresa apenas como fonte de renda, algo não muito diferente de uma aplicação no mercado financeiro.

Ocorre que uma empresa apresenta uma diferença fundamental em relação a uma aplicação financeira: a empresa enfrenta competidores diariamente, que buscam oferecer produtos melhores e mais baratos, e que se forem bem-sucedidos podem reduzir os seus lucros ou mesmo determinar a sua saída do mercado! A empresa não pode ser vista apenas como uma fonte de renda para seus proprietários, na forma de lucros. A empresa é um agente em um processo incessante de competição.

Neste sentido, cabe a crítica que o economista de empresas William Lazonick fez ao famoso economista Milton Friedman. Friedman uma vez afirmou que o papel da empresa era “apenas” dar lucros. Lazonick contestou: o papel da empresa é fornecer produtos mais competitivos do que os dos seus rivais. O lucro seria a consequência natural disso. Considerar como função da empresa apenas dar lucros muitas vezes leva a uma atitude rentista por parte da família controladora, o que não permite que a empresa cresça e se torne mais competitiva. Este é o primeiro obstáculo ao sucesso da empresa familiar.

Mas há outros desafios à empresa familiar, que veremos nos próximos artigos.

Virando a página II: Ilan Goldfajn no Banco Central(mai/2016)

Paulo Gurgel Valente

Um dos mais fortes candidatos indicados à presidência do Banco Central, Ilan Goldfajn enfatizou, em palestra esta semana no Rio de Janeiro, que a política derivada da nova matriz econômica – "podemos expandir os gastos sem controle porque um dia a coisa se ajeita pelo próprio crescimento econômico” – foi a causa principal dos problemas econômicos que, em dramático resumo, quebraram o país.

O termo nova matriz econômica não foi só colocado em discursos ocasionais da boca pra fora, mas constou de artigos técnicos, inclusive dos atuais ocupantes dos postos de comando da economia. Saímos de um superávit primário positivo de 4% do PIB para 2% ou 3% negativos, um percurso de afogamento continuado em que o governo não reconheceu o problema durante a expansão do déficit, de mais de R$ 111 bilhões em 2015, três vezes maior que o déficit que interessava no ano eleitoral de 2014. Trata-se da fórmula de manter o projeto autoritário de poder em que os fins justiçam quaisquer meios, mesmo que ilegítimos.

Por que não é possível gastar “como se não houvesse amanhã”? É muito simples: os excessos aumentam a dívida pública, que não pode ser crescer indefinidamente, levando ao risco de não ser assimilada pelos credores e o governo tornar-se inadimplente.

Goldfajn reafirma a gravidade da responsabilidade fiscal, visto que não é possível combinar ideologia com aritmética, ainda que a economia do país não seja exatamente igual a um orçamento familiar ou empresarial. Uma afirmação inédita do palestrante é de que o congelamento do preço da gasolina foi o pior problema para a Petrobras – até mais grave do que a Lava Jato – e para o Rio de Janeiro, que ficou viciado nos royalties do petróleo.

O ritmo inflacionário, tendo chegado a elevados 11% em 2015, tornou mais difícil o retorno a níveis aceitáveis, seja por conta do mecanismo da inércia inflacionária de preços administrados ou ainda pela aceitação dos reajustes. Muito embora a inflação esteja cedendo por conta da gravidade da recessão, acredita-se que estejamos agora no nível de 9%, com a expectativa de se alcançar os 7%, ficando próximo da faixa superior da meta do Banco Central em 2017.

Goldfajn foi ainda bastante objetivo em apontar as três medidas que para ele seriam indispensáveis para a economia brasileira:

(1) Criar um limite para os gastos públicos, talvez um percentual do PIB, de forma que as reformas em geral se subordinem a alcançar estas metas. É claro que as reformas não surtirão efeitos no curto prazo, mas servem como um importante sinal de que há uma solução, um alívio, e de que ela está a caminho.

(2) Aumentar a idade mínima da aposentadoria para 65 anos, bem acima do intervalo atual de 50-55 anos, criando um mecanismo de transição para quem já estivesse próximo deste novo limite.

(3) Desvincular os gastos públicos do salário-mínimo, uma vez que sua regra de correção pela inflação passada e crescimento do PIB está acima da produtividade, não obstante o PIB ter registrado nos últimos três anos valores negativos. Os políticos e a opinião pública não vão aceitar mudanças drásticas, por conta da importância de se manter o ganho real do salário-mínimo e de outros programas sociais.

Além destas três medidas, seria fundamental uma reforma trabalhista que conferisse maior flexibilidade aos acordos entre empregadores e empregados, para superar o desemprego severo, bem como a reforma tributária, haja vista a grande confusão de impostos e distorções entre os estados. O próximo governo poderá ainda desenvolver estímulos às privatizações, grande parte denominada concessões.

Um aspecto positivo é que a crise não passa pelo aspecto cambial, característica de quase todas as convulsões passadas, inclusive já que a balança comercial vem dando resultados positivos, em parte pelo crescimento da exportação e muito pela drástica redução da importação pela recessão. O reajuste do câmbio também veio promover uma redução do custo unitário do trabalho em dólares, já que as nossas práticas de reajustes elevaram o custo do trabalho em mais de 20% em relação aos EUA, o que é difícil de compatibilizar para que o país seja competitivo. Não se prevê nenhuma crise cambial, a menos que no curto prazo surja (ou ressurja) um candidato populista que faça a multidão correr através de uma porta muito estreita em direção a ativos mais estáveis.

Quanto ao desemprego, mesmo com as reformas, ainda terá efeitos dolorosos, pois no primeiro ano de demissão, o desempregado ainda vive com o valor da indenização, mas esta acaba sendo consumida rapidamente.

Talvez virar a página da economia seja pouco, vai ser necessário abrir um livro inteiramente novo.

Virando a página: Serra-Meirelles(abr/2016)

Paulo Gurgel Valente

Os governantes sempre nos dão muitas alegrias: se não for quando entram, certamente quando se despedem.

Estamos no momento de virar a página, pelo menos na gestão da economia. Três objetivos são indispensáveis: (1) Resgatar do desemprego grande parte dos 10 milhões de brasileiros, (2) Reduzir a inflação para os patamares que melhorem o poder aquisitivo das classes menos favorecidas e (3) Recuperar o controle das contas públicas e o grau de investimento externo, símbolo da visão positiva do país no exterior.

Neste momento há duas grandes apostas para comandar a economia ou ocupar ministérios importantes: José Serra e/ ou Henrique Meirelles, sobre os quais reproduzimos alguns comentários publicados em artigos anteriores.

José Serra

Começando pela área social, a percepção de Serra é de que a educação, muito mais do que a construção de escolas, merece reformas profundas na qualidade do ensino, na capacitação dos professores e na elevação dos conteúdos transmitidos às novas gerações, do ensino primário às escolas técnicas profissionalizantes.

Mas, se a educação é crucial, é apenas um capítulo de diversas questões que precisam ser vencidas na organização social. Na Saúde, em semelhança com a Educação, o investimento prioritário deve ser na humanização, no incentivo ao acolhimento e carinho aos necessitados, de modo que o sistema de consultas, tão necessário, seja acelerado. Cita a forma de gestão e de formação de equipes, onde cabem indicações por competência e não partidárias: o exemplo mais grave disto no governo atual, foi a perversão das Agências Reguladoras, especialmente no setor que conhece bem por ter sido Ministro da Saúde, como a Agência dos Planos de Saúde e a ANVISA e na FUNASA, que estão sendo foco de loteamento político e consequente desmoralização das instituições.

Seu princípio de administração pública passa pelas alianças indispensáveis, mas desde que não haja outros compromissos que não os de competência e ética. Para Serra, a oposição não é inimiga mortal como quer a situação, mas apenas uma adversária no jogo democrático, com respeito às leis e aos poderes constituídos, com maturidade.

Serra, frequentemente avaliado como tendo ideias estatizantes, diz ser necessário um estado musculoso e não obeso como o que tem prevalecido com o enorme desperdício de recursos públicos mal gastos, junto com a arrecadação tributária mais alta do mundo, maior taxa de juros e absurdamente menor taxa de investimentos.

Serra vê, assim, grande espaço na melhoria de gestão e redução de custos, para que se gerem recursos para novos investimentos, tendo relatado que em um ano de Prefeitura de São Paulo, um dos maiores orçamentos do país, reverteu, com estes métodos, sua situação financeira então precária.

A reforma tributária tem de sair do discurso: hoje quem paga, paga o dobro, pois há muitos não pagantes, indiretamente beneficiados, havendo um enorme espaço de redução de custos, sob o lema de se "gastar menos com a máquina e mais com as pessoas".

Há muitos bônus a considerar: a possibilidade de investimentos na infraestrutura, através das concessões inteligentes. Na área de intervenção estatal, Serra critica a política comercial externa brasileira, que não protege a indústria nacional do dumping, criando um modelo de redução do emprego.

Serra identifica, como prioridades, três itens de melhoria imediata do conforto da população: segurança, saúde e emprego.

Henrique Meirelles

Repetir fórmulas de sucesso tem sua validade, e o momento da economia brasileira poderia seguir este exemplo.

Em 2002, às vésperas de um novo governo, a incerteza sobre os rumos da economia, com a possibilidade de ruptura das regras vigentes, fez a nossa moeda rapidamente se desvalorizar até chegar praticamente à cotação de R$ 4,00 por dólar. Diante da possível instabilidade e de histórias recentes de confisco dos depósitos, quem tinha liquidez procurou se refugiar em outros ativos, fossem imóveis ou moeda, desde que não fosse a nossa.

A situação só voltou ao controle quando, de fato, Henrique Meirelles, junto com a equipe econômica do novo governo, foi se instalando e tranquilizando o mercado. O reflexo do movimento da taxa de câmbio expressa claramente o retorno à confiança no Real, somente quebrada recentemente com a crise internacional cujo clímax ocorreu em setembro de 2009, com a quebra do banco Lehman Brothers e o que se sucedeu.

Meirelles é um símbolo: banqueiro profissional com longo e respeitado currículo em instituições internacionais, foi a âncora na normalização do sistema e uma clara mensagem além fronteiras; sua perseverança e dedicação tem sido um serviço prestado ao país de valor, a despeito de algum excesso de conservadorismo em certos momentos.

Esperamos que a fórmula anterior de credibilidade se mantenha, pois a estabilidade da moeda é a base da harmonia da economia e do crescimento econômico, já que ninguém investe se a incerteza é alta.

Os mitos da Empresa Familiar(abr/2016 - Coluna Empresa Familiar)

Ronaldo Fiani

Nas faculdades de economia é comum se repetir a tese de que a empresa familiar é uma forma de organização rudimentar da empresa moderna. Os professores que discutem Economia de Empresa em suas disciplinas afirmam que a empresa familiar é um modo de existência ainda incipiente e transitório, que a condição de sucesso e crescimento da empresa é a superação o estágio familiar e a abertura do seu capital, pois somente assim poderá se tornar uma grande corporação.

A origem desta avaliação pouco favorável da empresa familiar remonta a 1932, quando foi publicado o clássico de Adolf A. Berle e Gardiner C. Means, The Modern Corporation and Private Property. O livro apontava a grande sociedade anônima, com ações dispersas entre um grande número de pequenos acionistas como o futuro da empresa moderna, a ponto de os autores escreverem que: "Baseados no desenvolvimento do passado, podemos esperar uma época em que praticamente todas as atividades econômicas serão realizadas sob a forma de sociedade anônima (página 17 da edição da Transaction Publishers de 1991)."

A partir daí Berle e Means discorreram sobre os problemas que a separação entre a propriedade (espalhada entre inúmeros pequenos acionistas) e a gestão (concentrada em poucos executivos com grande poder e autonomia decisória) poderiam gerar. Como consequência, os problemas e limitações da empresa familiar viriam exatamente do que a diferenciaria da grande sociedade anônima, particularmente: falta de especialização e profissionalismo na gestão (uma vez que a administração da empresa se concentra nas mãos da família e não de executivos profissionais); dependência dos recursos financeiros das famílias controladoras (por não poder diluir o seu capital em um grande número de pequenos acionistas), entre outros.

Os críticos das empresas familiares, contudo, teriam de demonstrar duas hipóteses fundamentais, coisa que não foi feita. Se, de fato, a empresa familiar é um estágio primitivo e transitório da grande sociedade anônima, então as empresas familiares necessariamente: (1) têm de ser pequenas, pois a abertura de seu capital e sua diluição em um grande número de acionistas seria condição para o seu crescimento; e (2) têm de ter vida curta, pois, segundo os seus críticos, ou a empresa familiar se transforma em uma sociedade anônima, ou ela perece esmagada pela competição, dada a sua ineficiência administrativa e sua limitação de capital.

Vejamos cada uma dessas hipóteses separadamente.

1. A empresa familiar é sempre pequena? Não necessariamente. Sem dúvida, empresas pequenas são empresa familiares, mas o inverso não é necessariamente verdade: em torno de 1/3 das empresas que compõem o índice Standard & Poor’s 500 da bolsa de Nova York são empresas familiares. Eis alguns exemplos de grandes empresas familiares no mundo: Mars Chocolate North America (proprietária das marcas M&M’s, Pedigree, Whiskas, Royal Canin, Uncle Ben’s); News Corporation (The Wall Street Journal, The Sunday Times); Cargill; Ford Motor Co.; Wal-Mart; Fiat; L'Oréal; Carrefour; Michelin; Samsung; Hyundai Motor; LG Group, BMW e Siemens. Já no Brasil temos: Ipiranga, TAM, Globo Comunicação e Participações, Itaú-Unibanco, JBS, Cosan, Magazine Luiza, Sadia, Gol Linhas Aéreas Inteligentes, Grupo Votorantin, Companhia Siderúrgica Nacional, entre outras.

2. A empresa familiar é ineficiente e tem vida curta? Novamente, há vários exemplos que desmentem a validade universal desta hipótese. A Cargill talvez seja o exemplo mais eloquente: esta empresa familiar foi fundada em 1865, ostentando um século e meio de existência! Há vários outros exemplos: a Ford Motor Co. fundada em 1903, a BMW em 1916 (um século este ano) etc.

Como devemos interpretar estes fatos? Obviamente, eles não significam que não há empresas familiares pequenas, ou que muitas delas delas não tenham vida curta. Eles indicam que o fato de a empresa ser familiar não é impedimento, por si só, ao crescimento e consolidação da empresa, como muitos economistas ainda acreditam. A empresa familiar não é uma forma rudimentar e transitória de uma sociedade anônima: ela é um tipo de empresa tão válido como uma sociedade anônima, e deve ser reconhecida como tal.

Mas por que algumas empresas familiares têm um sucesso tão retumbante, enquanto tantas outras fracassam? Este tema, bastante complexo, será o assunto dos nossos próximos artigos.

Imagine(mar/2016)

Paulo Gurgel Valente

Brasília, domingo, 22 de maio de 2016. A posse do novo Presidente nesta semana, depois dos atos de destituição votados no Congresso Nacional e a renovação das lideranças das duas casas do Legislativo, está dando novo impulso às atividades econômicas no país e à motivação da população para o futuro.

O novo Presidente está comprometido a reconstruir e engrandecer sua própria biografia neste momento tão relevante do resgate nacional e refez seu ministério com somente vinte pastas, com pessoas de notório saber, ilibada reputação e técnicos sem filiação partidária.

A recepção internacional ao processo de impeachment brasileiro seguido da posse, dentro dos preceitos constitucionais e democráticos foi muito positiva. Em que pese os pronunciamentos dos membros bolivarianos do MERCOSUL, os governos da Alemanha, Argentina, Chile, Colômbia, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália e Portugal, demonstraram apoio às instituições republicanas e democráticas do Brasil, saudando o novo governo.

A posse na última quarta-feira ocorreu pontualmente às 10 horas, e às 12 horas o novo Presidente já estava no Congresso apresentando seu projeto de emendas constitucionais, que preveem votação das quinze medidas iniciais:

1. Fim da reeleição para todos os cargos eletivos em caráter majoritário ou proporcional, com eleição a cada quatro anos para as esferas federal, estadual e municipal;

2. Término do financiamento eleitoral privado, empresarial ou pessoal, para quaisquer candidatos;

3. Desvinculação de despesas compulsórias no orçamento federal com proposta de mecanismos flexíveis;

4. Novos critérios para a fixação do salário-mínimo;

5. Flexibilização do mercado de trabalho;

6. Aplicação rigorosa da Lei de Responsabilidade Fiscal com previsão de equilíbrio orçamentário para 2017, com o estabelecimento de um teto para o endividamento público;

7. Revisão do sistema tributário nacional para eliminar as distorções;

8. Fim da indexação de contratos, propondo a livre negociação quando possível, para evitar a inércia inflacionária;

9. Revisão da Previdência Social, tanto pública quanto privada, para que sejam adequados os benefícios à capacidade financeira do próprio sistema, sem aportes do Tesouro;

10. Lançamento de novo programa de privatização, envolvendo empresas como Correios, Banco do Brasil e Petrobrás, entre outras, não só para acabar com focos de desvios dos últimos anos, mas também para fazer caixa exclusivamente para abatimento da dívida federal, com o combate ao compadrinhamento público-privado;

11. Fortalecimento das agências nacionais de regulação, com plano de contratação por concurso público e sistema de mérito e fim das designações em geral para cargos por indicação política, inclusive no sistema judiciário e especialmente nos tribunais superiores, como STF, STE, etc;

12. Abertura do mercado de obras públicas para empresas estrangeiras, terminando com a reserva de mercado de empresas nacionais e dando transparência total ao sistema de licitações;

13. Fim dos créditos subsidiados do BNDES e incentivos para a abertura de capital de empresas de porte médio, com lançamento de fundos de investimentos para captação de recursos de risco;

14. Banco Central autônomo e independente, sem influências políticas para perseguir a meta de inflação;

15. Revisão do funcionalismo público e seu critério de estabilidade.

A operação Lava-Jato terminou, com um relatório de milhares de páginas, que será seguido do devido processo legal e das penas previstas na legislação brasileira.

O Tesouro fez uma emissão de títulos nacionais e internacionais com vencimento em 30 anos, que substituíram o montante dos vencimentos nos próximos cinco anos, de forma a dar maior flexibilidade ao controle orçamentário e compromissos do Tesouro.

Diversas empresas brasileiras e internacionais com investimentos no Brasil resolveram retomar seus planos de investimento no país e anunciam programas de recontratação de pessoal.

***

Agora toque outra vez a música Imagine, gravada por John Lennon em 1971: imagine todas as pessoas, vivendo a vida em paz; você pode dizer que eu sou um sonhador, mas eu não sou o único, espero que um dia você se junte a nós, e o Brasil será como um só.

Águas de março no seu bolso(fev/2016)

Paulo Gurgel Valente

Na densa neblina em que estamos, parece impossível enxergar até mesmo alguns dias à frente. Há um forte desânimo da população, já que não parece haver solução de curto prazo para o descontrole do governo, com a queda no ritmo das atividades e a consequente piora da qualidade de vida, com o aumento do desemprego e da elevação de preços ao consumidor maior que os rendimentos.

Oficialmente, as três grandes agências de classificação de risco agora estão de acordo no rebaixamento do risco Brasil, o que nos deixa de castigo merecido pela imagem interna e externa, já que os credores da dívida pública estão de ambos os lados das fronteiras. A reversão de expectativas é, no entanto, possível. Em outras épocas no Brasil já houve importantes tentativas – uma bem sucedida por 20 anos – de reversão do quadro constitucional, que hoje mantém atado o orçamento público com despesas obrigatórias em geral e especialmente na área previdenciária.

Em 1986 o Plano Cruzado congelou os preços e criou uma nova moeda. Em 1991, com o Plano Collor, houve mais uma alteração do nome do dinheiro e, principalmente, o congelamento dos depósitos bancários e investimentos financeiros; finalmente, em 1994 instalou-se o Plano Real. Nos dois primeiros casos, houve grandes, súbitas e inesperadas rupturas dos contratos estabelecidos.

Nesta época de inflação e juros instáveis, no Brasil e em outros mercados, é indispensável rever alguns conceitos de preservação de poupanças e investimentos pessoais. Até nos EUA, o Banco Central americano começou a subir as taxas de juros em dezembro passado, mas rapidamente parou a ascensão e até mencionou a perspectiva de inédita taxa negativa, como alguns países da Europa estão fazendo.

Entendemos que a formação de um patrimônio envolve a constituição de uma carteira de investimentos, inclusive participações em empresas, familiares ou não, que geralmente não são consideradas como portfólio voluntário, até mesmo pela falta de liquidez imediata. É preciso ficar atento a um conjunto diversificado de investimentos, considerando metas de curto, médio e longo prazo, com vistas ao reinvestimento para a manutenção e crescimento do poder aquisitivo, além da solidez e da garantia de seus componentes.

Conforme já comentamos em artigo anterior, o melhor exemplo desta visão é a publicidade do relógio Patek Philippe: you never actually own a Patek Philippe, you merely look after it for the next generation. Em um tradução livre, você nunca é realmente o proprietário de um Patek Philippe, você apenas cuida dele para a próxima geração.

Se a natureza do mundo é a mudança constante, o conceito de risco fica estabelecido pelo desconhecimento para onde ou para o que as coisas mudam. Como gerenciar estes riscos é, portanto, uma questão com que o poupador deve se preocupar, planejar e tentar quantificar, sempre no monitoramento atento deste quadro.

Como exemplo do gerenciamento de riscos, vamos considerar uma aplicação financeira bastante difundida vinculada ao CDI – Certificado de Depósito Interbancário, na qual temos três componentes a analisar: (1) seu indexador baseado na taxa SELIC, (2) a desvalorização da moeda pelo IPCA/IBGE e (3) a taxa de câmbio. A taxa SELIC é principalmente um instrumento de política monetária e tem flutuado ao sabor da inconstância ou da falta de orientação da política econômica e embute a inflação presente ou prevista para doze meses; o IPCA/IBGE é calculado com base em uma cesta de consumo de bens de uma faixa de renda que alcança boa parte da população brasileira, mas está longe de aferir a variação da cesta de consumo de quem tem um patrimônio mais elevado, pois a correlação consumo/renda é uma curva descendente, isto é, quanto maior a renda menor o percentual dedicado ao consumo.

Quanto à taxa de câmbio, o dólar e outras moedas atreladas à sua paridade internacional finalmente voltaram a uma cotação que alcança o equilíbrio do comércio exterior brasileiro. Se reajustarmos a taxa de câmbio de R$/US$ 2,00 em 1999, logo depois da maxidesvalorização na entrada do regime flutuante, pelo IPCA/IBGE em fevereiro de 2016, teríamos uma taxa de R$/US$ 4,40, descontando a inflação americana no mesmo período. Por este ângulo polêmico, ainda haveria inclusive espaço para aumento da taxa de câmbio.

Por sua vez, a renda fixa propicia um taxa nominal alta, mas com a incerteza da inflação futura, o ganho real pode não existir. Quanto aos imóveis, a compra para revenda pela valorização futura é incerta, associado ao risco de liquidez; para rentabilizar o investimento via aluguel, há a limitação de valor da renda familiar dos locatários, que já não podem arcar com um percentual maior.

Em face destas considerações, um portfólio deveria considerar componentes mais amplos do que somente a moeda nacional, já que tanto o conceito moeda – este, sobretudo, atrelado à função reserva de valor, que perde sentido num contexto inflacionário – quanto nacional são instáveis, levando a conclusão de que um portfólio somente com esta composição não pode ser considerado conservador, mas até mesmo de algum risco, mediante as possibilidades de investimentos externos autorizados pelo Banco Central.

Mesmo a parcela em moeda nacional não deve se restringir a aplicações exclusivamente em juros, sejam fixos ou variáveis, mas também considerar, apesar da instabilidade, uma carteira de ações, e não necessariamente um fundo de ações que oscila segundo a administração e a entrada e saída de quotistas. Pode-se escolher uma carteira limitada de poucas empresas sólidas e de diferentes setores, com a relação preço-lucro (P/L) favorável no momento de compra, com boas perspectivas e mesmo assim com acompanhamento diário inteligente de stop-loss e stop-gains.

Estas considerações ficarão enriquecidas em debate com profissionais da área, que contribuirão com sua própria experiência, observando como é primordial a tendência de aversão a risco do proprietário do portfólio, que pode variar à medida que estiver mais bem informado sobre as opções. É claro que a aversão ao risco aumenta, com razão, quanto maior é o desconhecimento dos mecanismos dos diferentes investimentos e também, no cenário de grande instabilidade em que, por enquanto, vivemos.

Um Romance Medieval(jan/2016)

Paulo Gurgel Valente

Era uma vez um Reino ao sul do Equador onde os vassalos viviam relativamente bem, já que depois de décadas de carestia a moeda ficou estável, o que valorizou os ordenados, gerou trabalho e incentivou os investimentos.

Mas, sempre se quer mais: os plebeus ficaram seduzidos com um astuto barbudo representante da guilda dos metalúrgicos, uma das corporações de ofício mais influentes até então, e que tentou por três vezes chegar ao poder sem sucesso. Na quarta vez, entretanto, com o auxílio de grupos treinados em ilha caribenha, à frente Rasputin Dirseu, depois assentado como Primeiro Ministro, lá chegou coroado. Aproveitando a herança bendita de seu antecessor, ainda mais com o acaso do amplo apoio dos povos chineses, que demandaram de modo nunca antes visto suas matérias primas, o Rei Barbudo ficou com o Tesouro Real abarrotado de divisas.

Ocorre que para manter a maioria no parlamento, o Rei precisava dividir mensalmente a fortuna do reino entre os deputados e senadores. O regozijo geral do Reino se completou com a repartição ampla de benesses do Tesouro aos plebeus, comandada pelo Ministro Von Butter, com a concessão de várias sacolas de moedas e a ampliação de crédito para compra de mercadorias, víveres de primeira e segunda necessidades. Os plebeus, facilmente agradados, foram formando dívidas, a tentação foi irresistível e ninguém se preocupou com o crescimento das contas.

Viviam assim satisfeitos, o Rei e sua Corte (o Executivo) e os parlamentares (o Legislativo) exercendo a mais ampla interdependência, estando os súditos plácidos e ordeiros com as prateleiras e barrigas cheias. Como costuma acontecer nas máximas tragédias, das trevas emergiu um dos príncipes, Robert Jefferçon que, insatisfeito com seu quinhão, denunciou Rasputin Dirseu. Finalmente o terceiro poder, o Judiciário, despertou, tendo o juiz Barboça condenado a todos por esta divisão mensal do ouro do Reino, com exceção do Rei Barbudo, que surpreendentemente, conseguiu manter-se no trono e ainda fazer seu sucessor.

Os demais nobres, embora não fizessem parte da corte, foram dividindo o Reino em diversos feudos, com várias contribuições ao Rei e seu séquito mais próximo, de modo que estes nobres industriosos estavam bem-aventurados com suas sombrias transações camufladas, os vassalos entretidos com as novelas do teatro popular, o ludopédio, e com seus empregos garantidos pelos Príncipe Odebreque, o Barão Kamargo, o Visconde de Oas, o Conde Gutierrez e diversos outros, todos bondosos colaboradores na extração do ouro líquido negro do Reino e outras parcerias deletérias para o Estado.

Como não poderia permanecer no poder, o Rei Barbudo indicou uma nova Rainha, a Ministra Vilma, para guardar seu lugar para um próximo mandato, já que havia participado do gabinete real por muitos anos e ainda comprado refinarias até no exterior como senhora dos minérios e da energia.

Com múltiplas promessas e ampla publicidade, com fundos de toda origem proporcionadas pela nobreza laboriosa, mantiveram a “chama do mais”, e Von Butter foi continuando sua política até que os cofres do Reino estouraram. Em consequência, os nobres industriosos demitiram os plebeus, e o Judiciário, mais uma vez contrariado com seu papel secundário, mandou prender, através de um juiz mouro, membros da corte e da nobreza, para espanto dos plebeus, que até aquele momento só tinham visto encarcerados seus pares.

Em casa em que falta pão, todo mundo briga e, entretanto, ninguém tem razão: Edward Cunha, chefe da câmara baixa do parlamento, pediu com azedume a cabeça da Rainha Vilma, enquanto que o Vice-Rei, Miguel, o Temível, indignado, conspirou nos labirintos dos castelos sem êxito. Nesta situação desgovernada encontra-se o outrora próspero Reino, os antigamente cúmplices Legislativo e Executivo agora com as armas desembainhadas. Com os plebeus empobrecidos e desempregados, o Tesouro Real arrombado, o Judiciário às voltas com os resgates das moedas, muitos dos nobres e representantes do povo permanecem no calabouço.

A Rainha Vilma, embora mulher sapiens, ficou alheia a tudo, a pedalar assombrada pelos jardins do castelo e a zanzar desorientada pelos corredores saudando a mandioca e tentando capturar o vento.

Casa Verde(dez/2015)

Paulo Gurgel Valente

O Juiz da 13ª Vara Federal Criminal de Curitiba, atualmente o mais famoso do país, já mandou prender quase 120 pessoas, somente no caso em curso, e mantêm sob sua guarda um percentual importante dos detentores do PIB brasileiro, entre empreiteiros, banqueiros, pecuaristas, políticos, tesoureiro de partido e amigos do Homem, e segue avançando; a lotação de sua unidade já está tão grande que passa a transferir presos pelo Paraná mesmo, em Brasília e no Rio, no agradável bairro de Bangu, o mais quente da cidade.

Apesar de relativamente jovem para um Juiz, cursou o programa para instrução de advogados da Harvard Law School em 1998 e participou de programas de estudos sobre lavagem de dinheiro promovidos pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos. Também assessorou o Supremo Tribunal Federal no caso Mensalão, em função do treinamento que recebeu.

Mais de 130 anos atrás, em 1882, ninguém menos do que Machado de Assis publicou uma instigante novela, O Alienista, que guarda semelhança com tantos encarceramentos. Será que Machado nos dá uma pista dos próximos passos na presente novela aparentemente sem fim?

O personagem do conto, Dr. Simão Bacamarte, é um psiquiatra que se instala em Itaguaí, cidade do estado do Rio de Janeiro, distante menos de 40 km de Bangu, depois de longos estudos na Europa (nosso Juiz estudou nos Estados Unidos, como dissemos), e constrói a Casa Verde, um manicômio para abrigar todos os loucos da cidade. No começo, os internos eram realmente casos de loucura e a internação foi aceita pela sociedade, mas em certo momento Dr. Bacamarte passou a enxergar loucura em todos e a internar tantas pessoas que a lotação ficou esgotada.

A história segue com vários meandros e, por fim, a cidade contabilizou que três quartos de sua população estavam internados na Casa Verde. O alienista, percebendo que sua teoria estava errada, manda soltar todos os internos. Como ninguém tinha uma personalidade perfeita, exceto ele próprio, o Dr. Simão Bacamarte conclui ser o único anormal e decide trancar-se sozinho na Casa Verde para o resto de sua vida.

No drama que estamos vivendo, há uma fila de próximos ocupantes da Casa Verde atual, muitos entronizados nas presidências das casas do Congresso. Enquanto isso, neste momento, julgam um impedimento da atual primeira mandatária, de acordo com o Tribunal de Contas da União e o Tribunal Superior Eleitoral por ter infringido a Lei de Responsabilidade Fiscal em ano eleitoral, além de ter financiado sua campanha com recursos escusos.

Certamente todos estes "locatários" presentes e futuros da Casa Verde de 2015, torcem para que seja tudo um pesadelo acordado e que, brevemente, o Juiz solte todo mundo num indulto de Natal, presenteados com lindas tornozeleiras eletrônicas e que ele mesmo resolva se enjaular para sempre.

Esperamos que não seja em vão todo o sofrimento moral e material pelo qual passa o país, com três notas 10: 10% de desemprego, 10% de inflação e 10% de queda na atividade industrial.  Ou estamos a fundar uma sociedade justa, honesta e transparente? Por enquanto quem parece nos governar é o mosquito Aedes aegypti, e lança-se ao mar a lama metálica de Minas Gerais, o símbolo deste monumental desarranjo nas entranhas da República.

Como se não bastasse, ainda somos surpreendidos com uma carta pessoal, mas de conhecimento público, do vice presidente, endereçada à presidente, na qual está declarado o rompimento político e institucional entre os líderes do país.

Enquanto aguardamos mais cenas dos próximos capítulos, nos perguntamos se Machado de Assis teria a capacidade de escrever esta comédia dramática, mais sinistra do que qualquer ficção.

Dois mil e dezesseis(nov/2015)

Paulo Gurgel Valente

No não saudoso tempo em que os militares saíram dos quartéis e se instalaram no Palácio do Planalto, corria a seguinte gracinha de mau gosto: ao assumir, o primeiro general disse “o Brasil está à beira do abismo”; o general seguinte avisou: “o país deu um passo à frente”. E o terceiro general garantiu: “ninguém segura o Brasil”.

Será que em 2016 ninguém segurará o Brasil nesta definição abismal? Segundo o Diretor de Política Econômica do Banco Central de 2000 a 2003, atualmente economista-chefe do maior banco privado brasileiro, a situação não é boa, mas também nem tão ruim assim.

Em palestra ao mercado financeiro ontem, Ilan Goldfajn afirmou que a situação mundial está melhor, uma vez que os EUA já estão planejando o aumento da taxa de juros no próximo mês para equilibrar o ritmo de crescimento. Na Europa, a recessão praticamente cessou e a China já estaria no processo de uma estabilização de um “novo normal” da taxa de crescimento de 6 a 7% a.a., ainda alto, mas muito inferior aos 10% a.a. registrados na época de glória para o Brasil, quando houve o boom das commodities.

No plano interno o ajuste da taxa de câmbio na faixa de R$ 3,80 já está formatando um equilíbrio no movimento de exportações e importações. Outro ponto positivo seria de que os valores de combustíveis já estão equilibrados, assim como o extraordinário aumento da tarifa de energia elétrica já alcançou seu patamar e não há, esperamos, surpresas a frente.

O mercado de trabalho, entretanto, ainda está péssimo, com o desemprego tendo alcançado uma taxa média de 9%, caminhando para 10%, além da queda do salário real e da baixa produtividade da indústria. Uma parcela significativa do aumento do desemprego teria relação com as grandes empresas envolvidas na operação Lava-Jato, sobretudo aqui no Rio de Janeiro onde somos petróleo-dependentes. Como não poderia deixar de ser, o nível de investimento tem caído por nove trimestres seguidos.

Como todos sabemos, nossa estagnação dupla está no lado político e fiscal, dado que não se consegue uma definição para o gigantesco ajuste fiscal necessário para estabilizarmos o nível da nossa dívida bruta, cujo patamar já nos rendeu notas negativas das agências de rating.

Diante do exposto, Goldfajn concluiu apresentando quatro possíveis cenários para a economia brasileira nos próximos anos:

(1) Consenso político, com todos os políticos da situação e oposição correndo para o abraço, obviamente tão provável como a existência do Coelho da Páscoa e do Papai Noel;

(2) Algum alívio, nas situações fiscal e política;

(3) Pequena deterioração;

(4) Forte guinada populista com a liberação de crédito, transferências de renda para a população e aceleração da inflação, situação que seria certamente desastrosa.

A perspectiva mais provável é ficarmos numa oscilação entre os cenários Dois e Três, em que poucos alívios seriam acompanhados de alguns recuos.

Como o Papa é argentino, e parece que sob proteção divina está finalmente reiniciando a América Latina fora do populismo irresponsável a partir de Buenos Aires, estaria na hora dele intervir e pedir a Deus que volte a ser um pouquinho brasileiro.

Em caráter de urgência (out/2015)

Paulo Gurgel Valente

Desde 2010 a taxa de crescimento da atividade econômica brasileira vem caindo dos 7,6% a.a. para aproximadamente zero em 2014. A cada semana temos uma piora na previsão do Banco Central, cuja última pesquisa indica que a queda será de 3% ao final de 2015, sem alívio para o próximo ano, com a variação do PIB prevista em menos 1,2%.


O Brasil no ano passado ainda figurava como a sétima maior economia do mundo em termos absolutos (medido pelo PIB), como alardeia o governo. Considerando, entretanto, o tamanho da nossa população (PIB per capita), estamos no triste 42º lugar, atestado na nossa pobreza relativa, como omitem nossos governantes.


A inflação tem crescido desde 2012, quando medida pelos valores acumulados em doze meses, chegando praticamente aos 10% atuais; no ano de 2016, entretanto, espera-se um retorno para 5,6%, ainda acima da meta de 4,5%, recuo previsto, infelizmente, sobretudo por conta da retração das atividades, mas também pelo choque causado pelo governo com flexibilização dos preços administrados de forma não gradual.


A taxa de câmbio oscila claramente pela incerteza política, como podemos notar pelos principais acontecimentos políticos e econômicos indicados no gráfico a seguir, e desde agosto de 2014 vem subindo talvez para um patamar, quem sabe, mais realista, mas que ainda espelha a preocupação com o futuro.


O público em geral enxerga somente os aspectos deletérios da desvalorização do Real, não vendo que o equilíbrio necessário às outras contas como exportações, importações, viagens e aplicações financeiras seja propiciado justamente por essa variação do câmbio. Depois da subida do dólar, o saldo da balança comercial começa a melhorar, o que nos dá maior segurança no front externo.

Apesar de o governo afirmar que a crise vem de fora, o Brasil ainda é um país cuja exportação em relação ao PIB é muito baixa, 11,5%, (o Brasil está na “frente” apenas de Afeganistão, Burundi, Sudão, República Centro‐Africana e Kiribati), enquanto que a média mundial é de aproximadamente 30%, o que contraria a tese da grande exposição da economia brasileira aos eventuais efeitos externos.

Na verdade, os problemas internos são os principais responsáveis pela crise atual, de natureza política e econômica, o que afeta a confiança empresas e consumidores, pois as decisões de investimentos e gastos são adiados. Em que pese o cenário exterior favorável no período 2003-2012, com o real valorizado frente ao dólar, o boom das commodities, a falta de rumo na condução da política-econômica do governo acentuou a crise, gerando endividamento excessivo, controle artificial dos preços e a desestabilização das contas públicas; os escândalos do setor de óleo e gás se associam à queda internacional do preço do petróleo, instaurando uma conjuntura que inviabiliza as perspectivas dos investimentos planejados nos estados produtores, principalmente do Rio de Janeiro.


É claro que isso se reflete no nível de emprego, sobretudo nos vínculos formais pela CLT, com mais um milhão de desempregados no último ano.


Nota-se que o desemprego total é menos acentuado, já que há uma aparente migração dos empregados com carteira para a informalidade, apesar da forte aceleração da taxa de desemprego em 2015.


O governo anuncia que a solução do equilíbrio das contas públicas seria a volta da CPMF, com capacidade estimada de arrecadar mais R$ 32 bilhões quando, na verdade, é evidente a necessidade de uma mudança profunda na estrutura da previdência e gastos com funcionários públicos, medidas que vão contra o populismo demagógico.


Dessa forma, sem alcançar o equilíbrio, a previsão é do aumento do endividamento, acima do limite internacional, o que nos leva a perder o conceito de bom pagador nas agências de risco, e a possibilidade de receber investimentos do exterior cada vez mais indispensáveis.


Repete-se assim a analogia da medicina com a economia: o paciente está em estado grave e não pode continuar tomando analgésicos temporários e cada vez com menor eficácia, como a CPMF e, ainda, com graves efeitos colaterais: é preciso uma intervenção cirúrgica em caráter de urgência, com um profissional corajoso, competente e idôneo, qualidades que parecem estar em falta na economia e na política.

Como sair da crise(set/2015)

Paulo Gurgel Valente

A saída da crise começará com a "reversão das expectativas", expressão criada pelo economista Roberto Campos lá nos idos dos anos 1960, quando a situação não era tão diferente da atual em termos de perplexidade e falta de horizontes.

Mas como assim reversão das expectativas? Para respondermos a essa pergunta, será necessário voltar ao entendimento do funcionamento dos ciclos econômicos, isto é, abordar os fatores que levam a sua formação e dissolução. Também será indispensável distinguir entre um choque real inesperado, endógeno ou exógeno, que deflagra o momento de apreensão, e a continuidade da descida ladeira abaixo pelo movimento de realização das profecias autorrealizáveis.

Para o conceito econômico, o choque é um movimento brusco e forte que destoa da acomodação natural do equilíbrio de forças contraditórias do dia-a-dia, e que provoca efeitos sérios nos demais agentes econômicos. Os mais típicos choques são as marcantes mudanças de taxas de câmbio e juros, uma vez que forçam os mercados a uma nova colisão de forças em busca de um novo equilíbrio.

De certa forma, os ciclos econômicos têm um movimento semelhante ao brinquedo clássico do ioiô: uma vez atirado, o ioiô vai ao final de sua corda, até que, encontrando resistência, começa a fazer o caminho inverso, menos tortuoso na física do que na economia.

Para que a avaliação fique mais fácil, vejamos os exemplos a seguir:

1) O choque inicial foi uma denúncia que originou o processo das investigações de corrupção na Petrobras e que desvendou que os crimes foram tão ou mais graves do que os episódios do Mensalão, que por anos foi julgado ao vivo para agonia tanto dos finalmente condenados como dos cidadãos assistentes das revelações inacreditáveis. A partir do problema na maior empresa brasileira, propulsora de grandes investimentos e multiplicadora de empregos, percebe-se que uma queda geral nas atividades seria uma sequência esperada, com desemprego, redução dos níveis de renda, e assim por diante.

2) Logo depois da eleição presidencial de 2014, divulgou-se o fato – mantido em segredo para não espantar os eleitores – de que as contas do governo estavam gravemente deficitárias e que as consequências inevitáveis seriam o corte de despesas e o aumento de impostos. O tamanho da dívida pública precisaria ser controlado, pois haveria o risco da não aceitação de um montante maior pelo credor, sustentado pelas agências de rating que policiam o comportamento dos compradores de títulos públicos e investidores externos.

3) Ligado ao segundo exemplo, está a possível perda do conceito de bom pagador advindo do "grau de investimento", cuja concretização pode realmente ensejar um volume menor de entrada de recursos no país, alimentando o ciclo econômico na direção negativa.

Os três exemplos acima são palpáveis, mensuráveis, duros como rochas e contundentes como pontas de faca de aço: não há como não vê-los ou deixar de senti-los. Ocorre que o agente econômico, você mesmo leitor, consumidor, família, empresa, mesmo que não imediata e diretamente afetado, passa a agir com o receio geral e modifica seu consumo habitual e o investimento planejado. Logicamente, como toda a despesa de um agente econômico é a receita do outro, forma-se a cadeia negativa, mais forte ainda do que o impacto dos choques reais, já que agora é a incerteza do futuro que toma posse de todos: o ciclo negativo se desenvolve de modo acelerado.

Seria necessária a criação de um modelo econométrico que permitisse identificar o efeito da expectativa futura (negativa) sobre o momento presente. Os choques reais podem, ao longo do tempo, ser acomodados, por exemplo, ao se aprovar um orçamento público equilibrado, e se saber que seu rigoroso cumprimento fará um déficit desaparecer. No campo do comportamento presente, em função da "certeza futura" a respeito do fim do mal ocorrido, os agentes econômicos voltam a agir da forma anterior, com seu consumo e investimento multiplicando positivamente o ciclo de retomada das atividades.

Ocorre, entretanto, que para que a incerteza possa se dissipar, é necessária uma liderança política no país, que seja clara, firme e respeitável, o que não se verifica no momento. Os malfeitos, sejam de irresponsabilidade fiscal em julgamento no Tribunal de Contas da União ou de campanhas eleitorais com recursos ilícitos, no Tribunal Superior Eleitoral, estão inevitavelmente se associando aos governantes dos últimos doze anos, e ocorreram por omissão, pela incompetência, ou cumplicidade e consentimento, nenhuma das hipóteses infelizmente aceitável.

A saída da crise é, portanto, a geração de um novo fato político –constitucionalmente, por favor – que devolva ao país a liderança e a confiança, capazes de organizar o presente e reverter as expectativas negativas.